4.10.09

"Eu admiro pessoas que ainda escrevem cartas. Homens que beijam a testa e a mão. Pessoas com a fé inabalável. Mulheres que, com uma semana inteira pela frente, param na frente do espelho e passam batom.
Eu admiro as pessoas que olham para o nada pensando naqueles que amam. Que falam sobre sonhos. Eu gosto de ouvir pessoas que estão indo atrás de seus sonhos, e me fascino por aqueles completamente diferentes.
Apaixono-me por quem está rodeado de livros, e não ligo se com eles dividir sua atenção.

Eu admiro aqueles que ainda mandam flores. Velhinhos que seguram nas mãos. Crianças que são sempre sinceras e pessoas que sempre sorriem antes de começar a falar. (...)"

Trecho de "Gestos em Palavras".


Vanessa de Mello Brito

5.9.09

Eu pertenço ao vento, somente ao tempo em que vivo.
E acordo mais feliz quando tenho que passar pela rua de Ipês amarelos quando há flores nas árvores e no chão.
Morrerei sem glórias, nem de guerra, nem de tristeza e nem de amor;
e o tempo passará, e serei esquecida.
Assim como cada uma das folhas amarelas que tanto amei pelas manhãs.

Vanessa de Mello Brito

3.8.09

Sobre o dia.

Leio algumas linhas de um completo desconhecido e me vejo desenhada em seus traços, tão cheios de paixão, tão cheios de esperança e angústia, tão cheios de humanidade.
Releio alguns poemas de amor que me lembram uma infinidade de outros, como o fim de alguns poemas de Jorge Luis Borges.
Releio, e é como se eu escutasse um Blues tocando ao fundo, de alguém que tocou cada nota novamente e anotou, entre lágrimas, uma partitura já amarelada e vazia. Mais uma luz se apaga no prédio da frente.

A noite é um vácuo a ser preenchido. Alguns carros, cachorros latindo, uma cidade que só chove, uma pilha de livros para ser lida enquanto me perco entre milhares de poesias em que busco aquela parte de mim que costumava sentir tanto. Cada escrito é o meu refúgio em busca de uma parte minha que se esconde, uma parte minha que se perde enquanto mostro ao mundo um sorriso branco e vazio.

Ligo meu carro, abro as janelas e ouço Blues tão alto a ponto de não ouvir meus pensamentos. Fujo do que eu mesma me tornei, espero mais um dia acabar aliviada. Até que outro dia começa.

Vanessa de Mello Brito

Efêmero

Quando percebi os meus trajes negros
O vazio que o peito quase que estranhava
Não me reconhecia junto ao espelho
E lembrei dos sonhos que sonhava

Do barulho incessante de uma chuva fria
De uma cidade que nunca soube ser
Mais íntima da noite e das avenidas
Daqueles que ousaram a percorrer

O silêncio é a minha única companhia
Entre livrarias, cafés e conversas
Depois de um tempo o reconheceria
Não fosse o tempo sempre tão depressa.

Deixei as marcas do meu sapato pelo chão
Enquanto os meus passos uma mão lavava
Sei que os vermes estão a destroçar o coração
Que acelerava quando me avistava.

Vanessa de Mello Brito

23.6.09

Ele foi um dos primeiros, e não o primeiro. Não haveria de ser o último quando o conheci.





Diferentes, completamente diferentes, os gostos musicais, as áreas do conhecimento, o jeito de falar ou de ficar calado... E ele nem sequer gosta de literatura. Seria mais fácil continuar em silêncio enquanto eu me apoiava nele e seus braços me abraçavam inteira. O jeito com que me olhava parecia fazer o mundo todo sumir.





Dois grandes olhos verdes que nunca pareciam realmente saber o que falar, mas que procuravam tanto que eu sempre acabava por quebrar o nosso silêncio. Mais por nervosismo do que por necessidade. Por quanto tempo eu poderia continuar ali, deitada perto do seu pescoço, sem nenhuma necessidade de ir embora mais uma vez?



Eu quereria lhe falar que você nunca me mandou uma carta com um soneto, ou mesmo escreveu um trecho de Neruda nos meus cadernos; mas o jeito com que segura a minha mão e me protege de tudo em volta já compensa a sua inabilidade de qualquer romantismo.

Você não entenderia ou me acharia muito chata se dissesse que a poesia está em cada um de seus gestos. É verdade. O jeito como me beija e o jeito como me olha basta para que toda a minha racionalidade cartesiana se derreta e eu me entregue pelo menos por alguns segundos.





Nas idas e vindas, você procurava sempre por mim. Meu espírito é livre, minha alma inquieta, e meus caminhos sempre passaram por onde parecia mais difícil de se passar.





Hoje vejo que o tempo que gastei fugindo foi apenas uma ilusão que tive, um tempo que perdi.




Como você me disse, nenhum de nós dois saberá explicar o que acontece quando nos vemos, e nem o que sentimos. Tudo ao redor de nós mudou, assim como nós mudamos, e tantos anos se passaram...


Você sempre estava ali. E eu nunca realmente fui embora.






Vanessa de Mello Brito

25.4.09

shy




Imagem por : http://eliseurventuri.blogspot.com/

24.4.09

shy

enquanto observo seu mundo,
seus amores assim tão declarados
eu fico sozinha e aqui, quieta
se sinto, sorrio ao teu lado.

se fossem necessárias palavras
descrições, canções e poemas
eu nada poderia fazer
a não ser sair um pouco mais cedo.

se fossem necessários abraços
festas, amores, e tempo
eu lhe diria que o tempo que resta
é meu , e comigo contento.

se algo me agrada e não digo
e se meu olhar brilha diferente
é porque todo o universo me inspira
e o guardo comigo aqui dentro.

Vanessa de Mello Brito

22.4.09

ENVOI (1919)

Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz

Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.

(tradução de Augusto de Campos)

Ezra Pound

14.3.09

resposta ao hino

para J. L. Borges
O primeiro raio de sol mostra que é dia.
A música favorita toca no rádio assim que abre o sinal.
A certeza de ter feito a coisa certa, ou pelo menos o que queria fazer.
Conversar nas escadarias da Santos Andrade.
Cheiro de hidratante novo. O primeiro gole de uma coca-cola gelada num dia quente.
Uma rua vazia. Cinco Segundos de trocas de olhares com um completo desconhecido.
A emoção das coisas darem certo. Um livro que faz chorar.
Um poema que sai com rimas. Mesmo quando a idéia é não rimar.
Rever um velho amigo. Um capuccino com canela.
Reprises de desenhos antigos.
Uma vida inteira de Espera.
Acertar o caminho sem conhecê-lo. Uma foto de infância que faz sempre sorrir.
O barulho e o cheiro da chuva no mato.
Uma livraria com carpetes.
Cento e duas batidas por minuto no coração e um estômago revirado.
Fazer todo mundo rir com uma piada idiota. Ter bateria suficiente no celular.
E receber mensagens.
Estudar sobre as estrelas. Fazer planos sem querer conquistá-los de verdade.
Chorar de tanto rir. Rir tanto que dói.
A primeira palavra escrita em um caderno novo.
Sorrir por estar na sua pele, por ser exatamente o que se é.
Acordar tarde num domingo de sol.
Nenhuma necessidade de fazer sentido.

Tudo porque um homem a beijou.

Vanessa de Mello Brito

13.3.09

symptom checker

Although I dream you through the night
And still I think of it throught day
This feelling can't be love
And thus cannot be hate.

I know that your desire
Consume me in your words
Since then I lit a fire
that burns me in towards

You lit up a cigarette
The smoke involves you
The way that I adore

I felt like I'm in love
But love I cannot call
What I can't feel for sure.

Vanessa de Mello Brito

11.3.09

Soneto da busca sem encontro

Estive presente em todas suas vidas
Em cada passo sei que fui para trás
Em uma constante ou numa recaída
Eu fui aquela que precisava mais

Pouco ou nada soube sobre o verdadeiro
eu de cada um que vocês devem ser
Mas fui como a chama que vem do isqueiro
E que logo apaga, sem que possam ver

Que os verdadeiros poemas não escritos
Aparecem-me todos os dias
Dentro de seus olhos e segredos.

E sou aquela que procura em vão
A poesia que nasce da agonia,
A poesia que nasce dos seus medos.


Vanessa de Mello Brito

confissão

Você verá, mas não no presente
Que não fui mais do que devia ser.
Estive no escuro quando houvera luz
E fui a dúvida em que querias crer.

Da minha boca sempre tão rosada
Saíram-te palavras e beijos.
E a minha mão, quase que esculpida
Segurou-te em passos e ensejos.

Sei que no meio dessa grande estrada
Eu fui aquela que, sem esperar
Você acabou por encontrar

Eu fui aquela que, nos pensamentos
Não tive certeza em nenhum momento:
Eu nunca pude me apaixonar.

Vanessa de Mello Brito

relacionamento em três atos

Ao ver-te, queria amar-te
Amar é uma arte, ao sabê-lo.
Sem tê-lo, quis chamá-lo
Só de meu, mesmo ausente.

E então, fizemo-nos nós
Ao ter-me, fiz-me presente
Aqui, fiz-me um presente
Ao tê-lo sempre ao meu lado.

Embora sonho, consumado
Soube ateá-lo junto ao fogo
Em parte desse jogo
Tornei-me pesadelo.


Vanessa de Mello Brito - 2008

.

In those marvelous skies
I could reach your hands
and I will think no more

In this careless days
I can touch the sand
and I won't fear for sure

In your faithful arms
I love all of you
more than I did before



Vanessa de Mello Brito

28.2.09

Escuto, mas é como se não escutasse. Alheia a tudo e a todos, permaneço apática, como quase sempre. Suas convicções, paixões e medos me fascinam, enquanto minha indiferença me empurra para o meu lugar.
Quereria ter tantas certeza quanto vocês enquanto falam... Vaidosos, destemidos, cheios de si. Fico quieta e ouço muito pouco do que se diz na mesa, no entanto, presto atenção nos gestos das pessoas: seus passos, suas tosses, o cabelo sendo arrumado, o pouco de açúcar que cai na borda da xícara, as rugas que marcam as expressões de uma vida toda.
Alheia aos seus sentimentos eu não sei bem onde me colocar. Coloco-me no meu lugar: não faço parte do que vocês são.


Vanessa de Mello Brito

31.10.08

Jazigo

Se eu já não sinto nada ou quase nada
E se acabou porque pensei em mim
E se eu minto não sentir mais nada
Minto pois sinto: deve ser assim.

E se a mentira acabou com tudo
Os sorrisos e a vida de um ano inteiro
Minto pois sinto que o tempo é pouco
E foi você quem me mentiu primeiro.

E se a vida lhe parece vaga
Ou se a vida lhe parece morta
E não há ouvidos para ouvir seus ais

Ou se a morte quase lhe conforta
Eu lhe digo, feia ou quase torta
Que flores mortas não respiram mais


Vanessa de Mello Brito

29.10.08

ouvido

Todos os instantes em que me acomodo
Em meio aos raios de sol ou de trovão
Raízes econômicas, núncio, mandato
E sementes que nunca florescerão

Caminhei pelas calçadas
(como quem não sabia nada)
E cansada do céu, olhei para o chão
Olhei para as folhas por essa estrada
Como um desenho na minha mão

As crises jurídicas, o fato, o negócio
O PIB, a medida, a hiperinflação
A exploração no discurso dos idiotas
E por alguns segundos, meu coração

Ouço menos que antigamente
Mal tenho ouvido você reclamar
Mas quando me deito, mesmo que estejas ausente
É no seu colo que tento me imaginar.

Vanessa de Mello Brito

18.10.08

Em algum lugar entre a vírgula e o ponto final.

13.7.08

Resumo

O que me irrita é o amor infinito pelas coisas finitas
A paixão erudita pelas coisas simplistas
O papel reciclado de palavras plenas
A mentira contida em quaisquer poemas

O haver no meu canto e em tudo que trace
O sofrer do meu pranto e em todo que nasce
Alvorada nascendo enquanto dormiam
E o sol já se pondo enquanto esqueciam

Na noite contida o silêncio que traz
Enquanto um espera, o outro que faz
A angústia daqueles já sem sofrimento
O desejo do antigo e manchado convento

A esperança do enfim já chegar a hora
O sabor do infinito que sempre demora
O aperto da mão e da palavra contentes
Esforço contido em toda as gentes

O desejo de um amor bem mais resistente
Que viva o apesar, o amanhã e o presente
A esperança de tudo ter ficado para trás
O desejo do sempre, do tudo e do mais.


Vanessa de Mello Brito

10.7.08

Prosa para a poesia.

Se eu pudese agradecer pela vida, não o faria à ciência ou simplesmente um milagre.
Devo toda a minha sobrevivência à Poesia.

Nas piores horas, foi ela que me visitou: quantos versos de angústia choramos juntas? Desde pequena, foram os livros que me acompanharam que ditaram a minha vida. Minhas amizades seguiram o sentimento verdadeiro das prosas poéticas, o meu amor sempre foi todo em versos.

Foi pela poesia que saiu das minhas mãos, enfim, que conheci o meu amor. E eu o amo como o mais puro e envolvente poema. Não teria graça se fosse um soneto metrificado, sonoro, pronto, previsível. O meu amor é feito de versos livres, mas que sempre voltam por serem feitos de amor de verdade.

Agradeço à poesia que, entre tantas coisas que mudaram, sempre permaneceu. Devo minha vida, minha consciência, minha esperança e minha sanidade à ela. Foi a poesia que me impediu de enlouquecer. Que me levou ao mais baixo túnel da tristeza e à mais alta estrela de felicidade.

Devo minha vida à poesia. A poesia que me trouxe vida, que trouxe o meu amor verdadeiro, que trouxe o verdadeiro sentido do caminho, do final. Que me trouxe o sentimento e a delicadeza, que me trouxe , enfim, singularidade o suficiente para acompanhar tudo que existe neste universo humano, tão humano, que provoca tantos sentimentos diferentes.

A poesia é a única verdade que existe que consegue ser sempre bela em todas as suas formas.

Vanessa de Mello Brito

9.7.08

y un gato de porcelana

Esse tango argentino me faz lembrar do vestido vermelho escuro rodado e da dança que nunca tive. Mas o vinho preenche o vazio, deixando e levando a elegância de dentro. Suas sobrancelhas diziam mais sobre ele mesmo do que ele me disse a vida inteira. Éramos ótimos afinal, ótimos dançarinos de tango em tempos remotos entre vinhos e passeios por Buenos Aires, mesmo sem nenhuma dança. Afinal, vinho tínhamos. Muito.

A música incomodava a conversa que a lugar nenhum chegaria, e eu me conformei a responder "sim ou não" de acordo com a sua sobrancelha. Quando ela não me parecia clara eu perguntava o que queria dizer com isso.. E a expressão seguinte decidiria um sim ou um não.Ele era loiro, mas seria mais bonito se tivesse nascido ruivo, já que ruivos são tão mais difíceis de se encontrar. É isso afinal, que todas procurávamos: um homem difícil de se encontrar. Deveria ser ruivo. Apesar do tango, do vinho e da cidade combinarem mais com os morenos.

Sua sobrancelha mostrava-me como responder e eu rodava aquele copo de vinho como os dançarinos rodavam naquele salão, pequenhas partículas se moviam dentro dele. Fácil a vida desses dançarinos de tango nessa cidade, fácil esse vinho barato que me traz saudade daquela dança, aquela que nunca tive.
Respondi sim para a sobrancelha dele e, quando percebi, estávamos indo embora.

Ao invés de ter aceitado uma dança, percebi que naquele momento desperdicei mais uma taça de vinho. Quanta vida jogamos fora nos dias de hoje, não é mesmo?

Vanessa de Mello Brito

27.6.08

Quando menos esperava, caiu da escada.
Sentiu-se vigiada, debochada, envergonhada. Sentiu-se humana.
As visões ao redor viraram-se para ela - toda a beleza da sala com tapetes vermelhos e vasos antigos foi esquecida por aquele detalhe. Embora alguns fingissem que nada aconteceu, outros poucos tentaram ajudar, perguntaram se estava tudo bem. Sentiram-se obrigados, força da educação. Talvez em algum lugar, em algum momento,eles também haviam caído. Fato é que o joelho estava ralado, mas isso ela mal havia sentido naquela hora.
Na verdade sabia que se não estivesse caída, mal seria notada entre tantos egos importantes e inflados.

Arrumou o vestido e perguntou o nome dele, aquele que segurou a sua mão.
Já não importa qual era, mas era um nome em latim. Suas mãos eram quentes e fortes; e ela se sentiu segura o suficiente para levantar, e seguir em frente. Sorriu.
Com um joelho ferido, envergonhada, ela tentava entender como aquele desprezível acidente aconteceu, jamais perdoaria a si mesma por tropeçar de um jeito tão estúpido.
Os rostos que começavam a virar para cada um lembrar novamente de tudo ao redor de si mesmo, principalmente de si mesmo, como tudo sempre foi.

Logo ela se esqueceu de vestidos, tapetes vermelhos, olhares repressores. Logo ela se esqueceu de que talvez fosse algo comum cair assim, sem razão alguma. Logo esqueceu de si mesma. Mas ficou feliz por ele a deixar ainda segurar na mão dele, tão segura, ávida, carinhosa.
Tão doce e forte ao mesmo tempo.
Seus olhos olhavam para os olhos dela com um brilho que ela nunca havia visto. Que talvez ela ainda nem entendesse, mas confiasse.
Por vezes ela cairá na vida, disso ela tinha certeza. Mas mais certeza ela teve ainda de levantar quando viu aquela mão segurando a sua, tão certa que jamais teria sonhado com algo assim por toda a vida.

E tinha a certeza de continuar enquanto aquele brilho existisse.

Vanessa de Mello Brito

9.6.08

( encontrado em um caderno antigo..)

escrito em 21/02/2004

Os papangus me acordaram
Lá pela estrada de chão
Lá pela estada comprida,
Estrada pra São João

E pelas mãos calejadas
Desse povo sofrido
Enxergo algo bonito
Dentro de seus olhares.

E pelas casas de pedra,
Pelos caminhos sem fim
Enxergo algo de triste
Dentro de seus cantares

Pela vida dura e seca
Pela reza que espanta o mal
É que posso dizer, Nordeste:
Teu sorriso é teu cartão postal.

Vanessa de Mello Brito

5.6.08

.

Hoje, ao caminhar, percebi que olho muito para o relógio: tempo mecânico que tornou-se o compasso da minha existência. A realidade pareceu-me fria quando vi a verdade:
Quanto maior o sonho, mais há a ser feito. E o meu amor por toda a humanidade é por demais grande para que eu possa parar.

Por isso, não conto mais meu tempo em anos ou estações: são os segundos que me são preciosos. São os descansos que me são ociosos.

E são os sonhos, sempre eles, que me fazem continuar.

Vanessa de Mello Brito

27.5.08

Éramos muitos, éramos multidões.

Éramos muitos, éramos multidões. E acreditávamos que, no futuro, nada nos separaria.
Mal sabíamos que era o tempo que nos levaria tempo demais.

Sorrir não, sorrir nunca foi perda de tempo. Embora soubéssemos que a felicidade nada mais é do que fábulas em que acreditamos periodicamente.
Pegadas na areia que a chuva, a chuva que vem dos nossos olhos, levaria com o tempo que nos levou tempo demais.
O passado, aguardaríamos com o futuro. Desse sentimos saudade e, mesmo com os braços mais longos do que foram antes, não nos conseguimos mais alcançar.
A morte não nos parecia perto, parda, inevitável. A morte seria apenas uma terra distante de que ouvimos falar.

Embora fôssemos tantos, sentíamos uns aos outros, sabíamos nos ser. Pensando nossos pensamentos e entendendo nossos sofrimentos, amando os nossos e os outros amores. Éramos muitos, éramos multidões.

Vanessa de Mello Brito

22.4.08

Soneto dos Opostos

Caminho em uma linha
De um lado, toda minha
O certo e a certeza de tentar,
O raro e triste dom de perdoar.

O outro se corrói
Se fecha e se destrói
Se ama, ama a si mesmo:
Nada mais a enxergar

Caminho entre a certeza
A ordem, a beleza
O sentimento e a vontade de ficar

No outro lado um vazio
Um oco entre o frio
E uma voz esperando para deixar

Vanessa de Mello Brito

21.4.08

Soneto do Amor Verdadeiro

Eu, que mergulhada no torpor
Que a vida inteira não soube curar
Quero-te para amar e para o amor
Que em seu corpo pude encontrar

Se nesta terra resolvi findar
A minha mágoa desaparecida
Secaram as lágrimas que ousei chorar
E os desencantos de toda a vida

Que venha a luz clarear meu dia
E a noite inteira
Lâmpadas acesas

Que venham você e a poesia
Na corredeira
A espantar tristezas

Vanessa de Mello Brito
Há séculos não durmo. Que foi que eu fiz para precisarem tanto de mim? Quantos discursos falsos em meu nome? Dei-lhes tudo o que têm: olhem ao redor, não chorem mais. Pois com o meu dom fiz as cachoeiras, montanhas e cidades. Sim, as vi crescer, e vi cada um de vocês crescendo. Quantas besteiras escreveram sem sequer pensar. Quantas besteiras, me digam?
Achei que lhes fosse suficiente. Ouço as vozes da madrugada, ouço vozes o tempo todo chamando-me pelo nome que deram para mim. Os amei quando os fiz, é fato. Mas odeio quando tudo o que querem está ao alcance de vós, não meu. Se estou longe e não respondo, é porque não posso: escolhi isso ao fazer cada um de vocês.
Eu lhes dei um mundo: sejam livres. E não tirem isso de outros. E não tirem o meu sono.
Quem ainda me chama? Ah, pequenos... eu mal posso lhes escutar.
Professor? Juiz? Fonte de todas as coisas?
Se ao menos enxergassem tudo o que fiz para cada um de vocês.


Vanessa de Mello Brito

16.4.08

cotidiano

sim,
deve haver algo de errado.

discuto erros de pijama
me escondo da chuva no telhado
aprendo o mundo na cama
e grito de bico calado

vejo as notícias em duas cores
preto e branco para ser mais exata
enquanto leio alguns horrores
tomo café horrorizada

deveria arrumar meu quarto
mas antes quero saber do mundo
em que ano estamos? qual é a guerra?
melhor mudarmos de assunto.

Vanessa de Mello Brito

15.4.08

Mariane

Infinito é o mar verde que preenche os olhos dela, completado sempre com um sorriso. Mesmo quando não está tudo bem, olhando para os olhos de Mariane, parece estar. Se todas as outras pessoas forem falsas, mesquinhas, invejosas, eu tenho uma em quem fecho os olhos e posso confiar. A amizade dela já é parte de mim, parte da melhor parte de mim.

Quereria eu que o mundo fosse de pessoas tão doces e frágeis e ao mesmo tempo tão fortes e idealistas como ela. Em quem eu acredito, em quem eu sei que não perderá seus ideais por qualquer uma das coisas mundanas. Quantas músicas escutamos juntas? Quantas vezes já não imaginamos o nosso grande amor... Os shows, as viagens, os sonhos, o pneu furado, as intermináveis risadas que fazem a barriga doer.

Quando ela está triste, mesmo que haja sol, o tempo parece estar fechado. Por isso é tão bom vê-la sorrir. Tê-la ao meu lado cantando, enquanto dirijo desviando dos outros carros. As milhares de voltas no bairro São Francisco, nas livrarias, nos sebos...

O tempo poderá passar, amiga, mas o que vivemos ficará. Pode ser que deixemos de existir, e que venham outras pessoas tomar nossos lugares nesse mundo. Mas enquanto eu estiver aqui, ou se um dia eu estiver longe dessa cidade, ou se um dia nós duas formos embora , sei que as ruas em que passamos cantando nunca mais serão as mesmas.

E como eu já te escrevi uma vez, a nossa amizade é uma das poucas coisas que eu quero que dure por toda a vida. Todo o carinho que tenho por você, quero que dure pela eternidade. Para que nossos filhos brinquem juntos, cresçam juntos, assim como nós crescemos em todos os sentidos. Para que nossos maridos sejam amigos. Para que alguém ria das minhas piadas sem graça. Para que sejamos testemunhas da vida uma da outra. Para te agradecer por tudo quantas vezes forem necessárias.

Obrigada, Mari, por existir na minha vida. E obrigada por me aceitar na sua.

Amiga, eu te amo tanto!

Vanessa de Mello Brito

14.4.08

Falta

Passar um dia todo sem te ver
É motivo suficiente para tudo ficar triste.
Os objetos ao redor, a mão vazia
Os braços soltos, a pele fria.

Passar um dia todo sem te ver
É como um dia em que o sol não nasceu.

Vanessa de Mello Brito
A infância cabe num gole de coca-cola em uma garrafa de vidro.

VMB

13.4.08

Ele me olha na cara
Eu pego e olho pro chão

Não me diga " e se..."
Que eu só te digo não.

Vanessa de Mello Brito

10.4.08

Não pagávamos psicólogo
Eu falava, ele bebia rum
Eu digo, não há critério

Meu mistério é não ter mistério nenhum

Vanessa de Mello Brito

Palavras

Entre suas próprias palavras
Eu sinto a tristeza que sente
Quando só lhe contei verdades
Descobri que você mente

As cartas espalhadas na cama
As lágrimas, agora secas, no colchão
Impávidas, belas palavras
Serão mais mentiras ou não?

Talvez eu já não me importe
Se são falsas, frias, fracas
Para meu coração desabar
Basta uma última faca

Talvez já seja então tarde
para escolher outro caminho
Meu coração eu sei que aguenta
Sei que aguenta ser sozinho.

Mas talvez ele sinta saudade
Das palavras tão opacas
E queira que sejam verdade
Sim, palavras, e não facas.

Vanessa de Mello Brito
Eu preciso de surpresas, de flores
De novas cores, refazer traços
Que em minhas lágrimas se compensem amores
Em minha vida, em tudo o que faço.

Vanessa de Mello Brito

8.4.08

madreporita

Clarabella tinha uma risada macia, daquelas que dá vontade de sorrir só de sentir por perto. Através da parede era possível ouvir aquela gargalhada despreocupada, de quem ri do mundo e de si mesmo. A menina de pele muito branca e de passos curtos parecia só sorrir.

No final da tarde passeava pela praia e jogava as conchas, pequenos restos de moluscos mortos, de volta ao mar. Assim como jogou fora todos os pequenos amores de sua vida. Leu em algum lugar que só os amores de verdade duram para sempre e então, talvez, ela nunca realmente tivesse amado.
Nenhum homem soube olhar para Clarabella como ela queria ser olhada. Nenhum homem realmente a viu como uma mulher linda, apesar de sua gargalhada, tão bonita. Seus passos tímidos e sua pele branca nada tinham a ver com os voluptuosos sonhos masculinos, e talvez seus amores nunca souberam achar nela a beleza que tinha, seu jeito de sorrir o mundo.

Talvez já tivesse jogado alguma pérola de volta ao mar, mas Clarabella andava pelo mundo distraída.

Jogou mais uma concha ao mar para ser levada para todo o sempre: não gostava da idéia de alguém vê-la chorar.

Vanessa de Mello Brito

4.4.08

dia de chuva

sobre o banco do passageiro
duas luvas roxas

no porta-luvas
Mario Quintana.


Vanessa de Mello Brito
Por mudar muito, disseram-me que não amei. É mentira. Pois o amor despertou em mim intensamente, de várias formas diferentes e, como uma estrela cadente, iluminou por onde passou.
Aqueles que sentiram sua passagem, o admiraram.

E depois cessou, como toda estrela.
E depois acabou, como a esperança dos suicidas.

Vanessa de Mello Brito

31.3.08

os olhos inchados
agora doem:
eu já não quero mais chorar

as mãos molhadas
que me corroem:
meu deus, me faça acreditar

que eu não vim
para esse mundo para
simplesmente sofrer

porque eu não quis
e eu não quero
te perder.

Vanessa de Mello Brito

Sobre desmoronamentos e contradições

Não há forças para levantar da cama
Muito menos para repetir a verdade
O que ele me fez, se realmente ama
De tudo o que agora vai deixar saudade

Talvez a vida desencontre planos
O gosto amargo deixe novos traços
Do que eu já vi se repetir nos anos
Com os mesmos errôneos, repetidos passos

Lágrimas caem enquanto você mente
Enquanto abro
Outro olhar tristonho

Fecho os olhos demoradamente
E ainda tento
Enxergar meu sonho


Vanessa de Mello Brito

29.3.08

texto sem compromisso com o leitor

Ouvi meu professor falando sobre maturidade poética e sobre o que o leitor vai pensar sobre o texto e sim, eu penso sobre isso. No sentido de não magoar quem me conhece, de não irritar quem não me conhece, de escrever algo que venha a fazer alguém pensar sobre a sua própria vida independentemente das palavras que escolho, das sensações que descrevo, das linhas que preencho e bem, como faz tempo que não escrevo direito, escreverei para mim.

São pensamentos, e não se edita pensamentos.
Hoje, leitor, eu não ligo para o que você vá pensar. Desista.

Realmente achei muito interessante a história de amor do casal da aristocracia que levou à aprovação da lei do divórcio em Cuba. Eles se amavam, muito. Mas eram ambos casados.. Com a desaprovação da população, foram morar em Paris e quiseram voltar. Fizeram uma casa majestosa, com móveis franceses, corrimão de prata. As portas eram de mogno cubano, por não haver melhor mogno do que o cubano, segundo o programa do History Channel falou. Eu casaria com o History Channel. Enfim, eles convidaram toda a aristocracia para a inauguração da mansão, que comoveu-se com a casa. E viveram felizes, juntos. Até a morte.
Por outro lado estava lendo sobre o escapismo que foi o romantismo, uma forma da burguesia de idealizar coisas e fugir da realidade. E talvez toda a ideologia tenha me convencido, porque sou romântica. Porque acredito no amor. E enfim... Racional, acreditando no amor. Que coisa mais escapista.

Pensei mais na união do casal cubano, sem ligar muito para a mansão suntuosa, e cheguei à conclusão de que ninguém é insubstituível, assim como ninguém é substituível. Ninguém é insubstituível no sentido de que jamais alguém poderia precisar tanto de uma pessoa que não achasse alguma outra para estar no lugar desta, para fazer companhia. E ninguém é substituível no sentido de que ninguém consegue substituir presença, palavras, cheiros, sensações. Tão parecidas e tão diferentes. Tão únicas.

Vejo a preparação do casamento da minha irmã, tudo muito chique, caro, suntuoso. E a sociedade será convidada para aprovar e testemunhar o casamento, como foi com a mansão cubana, para a aprovação do divórcio e do casamento dos dois. Enfim, espero de todo o coração que a minha irmã seja feliz e satisfeita com a festa, com a casa nova, com o seu querido marido. Mas penso sobre mim, sobre o que eu faria no lugar dela.
Não preciso desse tipo aprovação. Não preciso de festa, cerimônias, pessoas de quem nem gosto testemunhando dias felizes na minha vida. Talvez seja orgulho, necessidade de auto-suficiência, medo de substituição, sensação de ser insubstituível. Eu não preciso de aprovação, fora a minha..e eu ando ficando pouco tempo sozinha. Ando ouvindo mais a Constituição Francesa de 1791 do que a minha própria voz. E me tranco, me isolo do meu próprio direito de ser livre. Não preciso da sua aprovação, leitor. Passar bem.

Posso não gostar de casamentos no sentido de festas.
Mas sou romântica o suficiente para me casar. Sem escapismo. Hoje quero crianças, cachorros. Quero poder ter vida. Quero o poder de ter vida. Sem corrimão de prata ou porta cubana. Até porque não acredito em comunismo, apesar de gostar de história, apesar de gostar do History Channel. Não gosto de mogno. Eu já disse que casaria com aquele canal? Com o canal sim, com o Hobsbawm, acho que não.

Tenho que estudar mais para o Itamaraty. Saudades, saudades de mim.

24.3.08

O Passado

Às vezes a vida mesmo chega com os dois pés nas costas e derruba no chão, na cama. Impossível de levantar. O dia parece morto, o céu cinza, as pessoas apenas figurantes do sonho que houve na noite passada, que faz parte do passado. O sonho, a noite, seus fatos. Passados.

Pois o passado caminhava tranquilamente. Os óculos do passado. suas lembranças, as coleções. O passado ainda come filé à parmegiana e senta perto de você no teatro. Sorri, mas não te dará oi. O passado já deu adeus. E ficou no passado. Mas o passado sorri, dirige seu carro e deve andar nas mesmas ruas que descobriu com você. O passado deve ainda ter aquela coleção de DVDs da sua banda favorita e a avó do passado ainda deve fazer aniversário no mesmo dia em que você faz. Mas não se dá feliz aniversário para o passado.
E bem, você costumava acordar no passado e saber exatamente as frase prontas, o jeito de falar, o jeito de pensar e lembrar que às vezes o passado vinha no meio do intervalo da aula de inglês na mesma cidade fria do presente só para te trazer um chocolate quente, mais um casaco, uma palavra doce.

E talvez o passado se lembre de você como você se lembra do passado. Mas não seja mais o mesmo. Como não são mais as mesmas ruas, nem nós mais os mesmos. E as cartas ficaram todas empilhadas numa caixa colorida de um natal do passado. As mesmas juras de amor eterno em que tanto acreditava. Passadas. A catapora que tive, o desenho que ele me fez, cheia de pintinhas vermelhas, que sumiram com o tempo. Ficaram as cicatrizes.

E espero que o passado tenha passado, que continue com os mesmos sorrisos e que se lembre às vezes de como as ruas costumavam ser. E que não tenha mudado tanto assim, que continue sorrindo o tempo todo como sempre sorria. Que sorria para outros futuros como sorriu para mim, que faço parte do passado. Que passou, que passa.
Que me ensinou tanto. E agora relembro do passado, de suas memórias intocáveis, inocentes, puras. Do sofá vermelho da sala que agora é creme. Do meu cabelo claro que agora é negro. Do futuro que tínhamos e virou nada mais do que parte do passado.

Que passou, que passa.


Vanessa de Mello Brito

19.3.08

amado, armado.

caminho nas mesmas ruas
de tantas outras faces:
meu rosto não é fácil de esquecer

pareço distraída
mas dentro do meu olhar
algo está sempre procurando ver

paralelepípedos sem corpos
lavados pela história
esquecidos entre mortos
conservados na memória

placas com o nome de heróis
que puderam sê-lo
em meio a conflitos e civis

litígios e faróis
como revivê-los?
anônimos, espingardas e fuzis.

caminhadas e uniformes
os dentes na mesa
em que ao redor construíram uma família

vestidos corrompidos
(e pele fria)
daquilo que foi um dia a sua filha




[em vida e morte]

como uma fortaleza
que cruza os braços e reza
como um desesperançado
que fecha as mãos e ora

como uma mulher
que tem no ventre uma certeza.
como um ateu
que fecha os olhos e chora.

estúpida, estúpida clareza.
suja e inválida senhora.

Vanessa de Mello Brito

5.3.08

impasse:
impeço.

O mar vem,
me abraça

e passa.

Vanessa de Mello Brito

29.2.08

poema mimadinho

entre meus livros pouco vi
o tempo passar diante de mim...
quando acordei, percebi
que a vida não era assim

agora tento fugir
e em minha fuga, o relógio roda
a todos estranhos, sorri
e o meu sorriso incomoda

se em outros dias fui amada
eu pouco tive de perceber
estive sempre preocupada
com meu saber

bem nascida
bem criada
bem amada
não, eu não tive preocupação

quando caí, me esperava
alguma mão.

boa vida
bons amigos
bordados
de coração
só me irritei
quando aprendi a palavra "não".

Vanessa de Mello Brito

inevitável

releio seus textos antigos
sobre tudo o que ficou para trás
se naquele tempo era tarde
hoje, já é tarde demais


reli as palavras tão tristes
de que sempre tento esquecer
do que é feito, porque existe
e como é difícil entender


os olhos eu fecho, demoradamente
como uma criança que não quer enxergar
talvez eu não seja a semente,
eu já comecei a murchar


entristeço prontamente
como sempre pude esperar
o que não nasceu pra mim?
o que nunca pôde durar...


Vanessa de Mello Brito

15.2.08

Madame Tussauds

Ainda consigo sentir o quente da boca dele em minha mão. A última tentativa de respiração, a mais sofrida. Seu sangue espalhado pelo meu braço e minhas mãos cravadas, por dentro, em sua garganta. O segurava pelos dois lados da boca, como se faz com os cachorros raivosos, para os impedir de morder. Uma mão segurava seu rosto e a outra o afogava como se destroçasse sua epiglote, o impedindo de falar, engolir, respirar, viver. Os mesmos vagalumes de seu livro nos rodeavam: sublime. Realmente, criaturas sublimes, eu tinha que concordar. Suas barriguinhas acesas, cócegas de privilégio. Talvez não tivessem mesmo consciência disso.

Não tive em minha infância muitos contatos com vagalumes, nem com gargantas. Foi o primeiro homem que eu matei. Saí de seu apartamento coberta de sangue, coloquei minha jaqueta vermelha da adidas, nem seria tão ruim sair à essa hora da madrugada. Talvez alguns bêbados ou drogados à essa hora da noite. Dei a partida no carro com a cor do sangue, que fazia o mesmo barulho antes de eu ser uma assassina: O que são os carros, afinal? Sem consciência. Existência limitada, design, potência, motor. Mesmo assim, não consigo me apegar às coisas sem coração ou faringe.

Tenho certeza de que meu astigmatismo aumentou. Vejo estrelas. Ou seriam vagalumes?
Pouco importa, na verdade. Matei um homem. Tenho que tirar o seu sangue de mim.
Em casa, tudo parecia coberto dele : Maçanetas, fechaduras. A minha pia bege de mármore ficou vermelha. Depois rosa, e enfim, clara, à medida que a água levava seus glóbulos apodrecidos e a carne de sua garganta que ficara entre minhas unhas e meus dedos. Eu matei Cortázar. Aquela péssima sobrancelha, aquele ar argentino. O matei com minhas próprias mãos.
E eu sabia que viriam atrás de mim.

Quando cheguei, procurando o interruptor, as minhas mãos carimbaram a única parede branca do meu quarto. As outras são vermelhas. Eu não consegui limpar isso. Nem detergente, nem sabonete líquido, nem aquele sabonete com cheirinho de bebê de que ri quando minha mãe disse que comprou para mim: a mais nova da casa. Eu matei um homem, e não conseguia tirar o seu sangue da minha parede.

Achei giz de cera vermelho: perfeito. Comecei a escrever músicas dos Beatles, para disfarçar a mancha. Fiz desenhos tão bons quanto os que faço no paint. Talvez, minha mãe tivesse razão ao comprar aquele sabonete: meus desenhos nunca melhoraram desde a minha infância. Escrevo. E matei Julio Cortázar.

Entre músicas dos Beatles, me senti com as mãos assassinas de Charles Manson, as escrevendo pelas paredes depois de ter um cadáver em minhas mãos.
Lembro-me das últimas palavras que escrevi: "Get Back, Jojo".
A noite foi quente, adormeci. Eu sempre durmo muito rápido, talvez minha consciência seja como a dos vagalumes ou a dos carros.

Acordei, assustada: sabia que viriam me pegar.

Vanessa de Mello Brito

partido (a)

as cartas com a mesma letra,
os mesmos envelopes negros.
dentro do escuro, estrelas
palavras de amor, segredos.

talvez você vá
estrada, mundo afora.
seria injustiça
te impedir de ir embora.

e, se porventura,
te pedi pra me amar
seria egoísta
te pedir pra ficar

Vanessa de Mello Brito

14.2.08

Girassol

Cansei de reler versos tristes
que nada têm a ver com o meu dia.
Quero palavras felizes,
Quero escrever alegria.

Quando o vejo, meu amor
Tudo em mim é intenso.
Os beijos, os abraços, os espaços
O que te falo, o que te penso.

Não há nada melhor
Do que alcançar a sua mão
Encostar minha cabeça
Escutar teu coração

À noite, enxergo o sol
Quando você está ao meu lado.
E sorrirei como um girassol
Que continua iluminado.

Vanessa de Mello Brito

12.2.08

O Haver

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

15/04/1962


Vinicius de Moraes

11.2.08

Camila Christina, a Insuportável

Camila Christina quando estava sozinha repetia sempre que "todos os homens são iguais". Quando não estava, completava com "-menos este". Nunca admitiu estar errada. Uma vez acreditou estar errada, mas percebeu que estava errada - sim, ela estava certa, como de costume. E não errada.

Era inaguentável. Lia todas as revistas sobre "como conquistar seu gato" e só lhe restavam, no fim, seus felinos de quatro patas. Resolveu viver sozinha, aproveitando o seu bordão, ou melhor, axioma. Bordão nenhum apareceu em sua vida. Os gatos fugiram e Camila Christina decidiu assinar uma revista de culinária. Não suportava histórias de casais felizes.

Comprou para si um cachorro a quem deu o nome do seu primeiro namorado, Augusto. Aquele cachorro do Augusto!
Augusto era um cocker como qualquer outro cocker e levava um nome de qualquer outro homem. Para ela eram, afinal, "todos iguais".
Augusto experimentava as suas melhores receitas, mas morreu com um pavê de sonho de valsa. Camila Christina já não tinha gatos nem cachorros, nem sonhos. E há muito tempo não dançava uma valsa.
Mas aquele chocolate a deixava mais feliz, apesar de furar o primeiro dia de sua última dieta.

Morreu de diabetes.

Vanessa de Mello Brito

Insuficiência

As minhas mãos eu estendo
Para que nelas segure:
Não há nada, menino,
fora a verdade.

O seu passado, eu entendo
Embora nada o cure.
E nada em mim te traga
felicidade

Vanessa de Mello Brito

Público x Privado

Nem tenho tempo de me preocupar comigo
Costumo deixar as coisas resolvidas
A pia, não sou eu que limpo
A luz, não sou eu que pago
A lâmpada, sou eu que apago
A raiva, sou eu que sinto

E é quando escolho
[quase sempre]
A escuridão

Entre meus milhares de planos
Entre meus milhares de sonhos
ouço seu ressoante

NÃO.


Vanessa de Mello Brito

Retrato de um café curitibano

Para ela, três colheres de açúcar,
Para ele, nada.
Sua vida sempre fora mais amarga.

No café - corpos moles
Mergulhavam suas colheres
Em pensamentos
E goles.


Vanessa de Mello Brito

poema nem-tão-contemporâneo

New Beetle amarelo pela avenida
Meus cabelos, agora negros, ao vento.
Bombom de morango e Beatles
Coca-Cola e Mentos.

Sempre explosiva,
Tranco o carro
e o sentimento

por dentro.


Vanessa de Mello Brito
agradeço
por ter te feito sorrir
em algum dia

mas minha presença
não parece ser suficiente
para a a sua alegria


Vanessa de Mello Brito

Sobre a raiva e outros medos

Hoje
Eu quis morrer
Três vezes seguidas
Para mostrar como é medíocre a sua vida.

Hoje
Eu quis correr
As avenidas
E acreditar que vou embora decidida.

Hoje
Quis limpar com o meu sangue
O chão de cada hospício
O discurso de cada comício
Pular de cada precipício

Hoje
Eu quis matar com o meu corpo
O desejo de cada indigente
De cada morto
De cada lágrima que me sai quente

Hoje
Quis dissecar suas palavras
E o seu mundo onipotente.
Vergonha passada
Passado o presente

Hoje
Quero encarar sua hipocrisia
E o seu medo.
Da sua regalia:
O seu segredo
Que sempre cansarei de repetir

Hoje, cansei de ouvir,
De fechar os olhos e me cobrir.
Hoje, cansei de ser.
Cansei de tentar, de viver
E de omitir.

Hoje
Eu quis sofrer todo o passado
E desperdiçado o meu amor
Vi o meu caminho errado

Hoje
Eu quis morrer três vezes seguidas
Para livrar-me dessa dor
Em que resumo a minha vida.


Vanessa de Mello Brito

7.2.08

Quarta-Feira de Cinzas

é
às coisas mal-amadas
sofridas
acabadas
que me apego.

sonetos sem métrica
cartas tétricas
dias em recesso

causas sem justiça
ordem e progresso
cheios de preguiça

Vanessa de Mello Brito

5.2.08

Receita para uma vida melhor (em prosa)

(...)

Eu queria apagar o que te deixou triste. O que te fez sofrer. O que te deixou traumas, cicatrizes, feridas e lágrimas. Tantas e tantas lágrimas. Eu queria findar o seu arrependimento.
E isso é pretensão demais, eu sei.

Mas tudo o que te fere, me fere ainda mais profundamente. Pois a idéia da sua tristeza já me deixa triste. O motivo das suas lágrimas me faz chorar. E o ódio que você tem de algumas pessoas me faz odiar a humanidade inteira.

Que eu possa continuar tapando os seus olhos com a minha mão, para que você sinta a escuridão e me ouça.
Que eu possa te fazer enxergar todo o meu amor vendo o meu olhar.
Que eu possa amenizar as suas dores incuráveis,
Pois elas doem tanto em mim.

Que eu saiba sempre te fazer sorrir,
Pois você só merece sorrir.

Que desta vez eu saiba.

Vanessa de Mello Brito

1.2.08

Soneto para Florbela


inspirado em Florbela Espanca
Querida, senti tua sede de infinito
Ao retumbar a morte em violetas cálidas
Ao enxergar a vida em meu olhar aflito
Ao revirar meus livros com palavras pálidas

Senti tua inconstância e teu orgulho
Por entre homens, nada vi presente
Por entre mares de gente, mergulho
Com passo apressado, calado, carente

Ao longe me enxergando sem razão
Sinto que o mesmo vazio que tinhas
Agora paira dentro de mim

De perto procurando tua mão
A encontro entre livros e linhas
E poesias sem fim

Vanessa de Mello Brito

30.1.08

facada (ou momento culinário)



cortei a parte machucada da pêra
da laranja, joguei fora o bagaço

separei o bom do ruim com a peneira

e com o meu coração, o que faço?

Vanessa de Mello Brito

dor de garganta



axetil cefuroxima
nimezulida
paracetamol

canja de galinha
tylenol

repouso
água
imunidade

bolacha água e sal
saudade

Vanessa de Mello Brito

29.1.08

se




se eu te disser
pra vir comigo
você diz que sim?

se eu te chamar
pro meu abrigo
você vem pra mim?

e se eu te disser
que eu já cansei
do mundo que eu quis?

e se eu te disser
que não aprendi
a ser feliz?


Vanessa de Mello Brito

começo do fim



fim de janeiro
de dois-mil-e-não-sei-quanto

lá vai mais um ano
na vida de quem esperava tanto



Vanessa de Mello Brito

25.1.08

Carícia Feminina

inspirado em minha mãe

[Que eu seja forte o bastante para te ver chorar

E, mesmo assim, te fazer agüentar.
Que eu seja doce o bastante para te ter no colo
E, mesmo assim, não fraquejar.

Que eu seja simples ao falar,
Que saiba dizer o que tenho de dizer
Que eu seja aquela que sempre estenda
a minha mão ao te ver sofrer.]

Soneto Feminino

Que eu seja aquela que ao se irritar
Não perde nunca a fragilidade
Que eu seja aquela que busca amar
Independente de toda a maldade

Que eu sofra assim, como mulher
E que meus braços venham a receber
O mundo inteiro a se apoiar
Para aguentar todo o sofrer.

Que eu seja mãe, amiga e irmã
E que seja mulher, sempre a mulher
Pela qual se despertam paixões.

Que eu seja a luz da noite e da manhã
Que eu seja a estrela, sempre as estrelas
E nunca os trovões.

Vanessa de Mello Brito

22.1.08

Tanto Amar


Amo tanto e de tanto amar
Acho que ela é bonita
Tem um olho sempre a boiar
E outro que agita

Tem um olho que não está
Meus olhares evita
E outro olho a me arregalar
Sua pepita

A metade do seu olhar
Está chamando pra luta, aflita
E metade quer madrugar
Na bodeguita

Se seus olhos eu for cantar
Um seu olho me atura
E outro olho vai desmanchar
Toda a pintura

Ela pode rodopiar
E mudar de figura
A paloma do seu mirar
Virar miúra

É na soma do seu olhar
Que eu vou me conhecer inteiro
Se nasci pra enfrentar o mar
Ou faroleiro

Amo tanto e de tanto amar
Acho que ela acredita
Tem um olha a pestanejar
E outro me fita

Suas pernas vão me enroscar
Num balé esquisito
Seus dois olhos vão se encontrar
No infinito

Amo tanto e de tanto amar
Em Manágua temos um chico
Já pensamos em nos casar
Em Porto Rico

Chico Buarque

21.1.08

caminho na poesia
como quem voa pelo ar
tudo em mim é sonho
nem sempre risonho
ao calar.

aprendi com a minha mãe
a sentir
aprendi com meu pai
a mentir
aprendi com a vida
a calar,
nunca amar,
melhor assim.

aprendi com o mundo
a duvidar,
nunca amar,
melhor pra mim.

mas você chega assim tão perto
com um carinho assim tão certo
que fica impossível dizer não...
pois bem, segure a minha mão.

pois nesse mundo triste
sujo e vazio
é bom saber que existe
quem me abrace no frio.


Vanessa de Mello Brito

poema nonsense nº 2

enquanto faço essa cara
de lolita
você vem e rouba um pedaço
que me imita
enquanto eu rio e faço
o que te irrita
tento, evito e passo
dinamita.

Vanessa de Mello Brito

Poema dos contrários

inspirado em Marcos Prado e nos outros poetas de bar

Não sigo essa tua vida marginal
Tomo achocolatado de manhã
Não há em mim álcool, lexotan
Somente uma tristeza magistral
-febre terçã-

O silêncio me carrega
a ouvir dores de madrugada
Sem bar ou valeta,
Só letra
-mais nada-

E se na tua poesia
Sinto a cor que te moveu
Espero o sol,
Não o ônibus.
-o carro é meu-

Se enquanto vivia
Escreveu sobre a partida
Fiquei triste quando soube
-da tua breve vida-

Se pra fugir das drogas
Admitiu esta cidade
Eu escolho a maior delas:
Da vida,
-a verdade-

Vanessa de Mello Brito

Pela Primeira Vez


Pela primeira vez na vida
Sou obrigado a confessar que amo alguém.
Chorei quando ela deu a despedida
Ela me vendo a chorar chorou também.
Meu Deus, faça de mim o que quiser,
Mas não me faça perder
O amor desta mulher.

Na estação, na hora de partir o trem,
Ela me vendo a chorar chorou também.
Depois fiquei olhando a janela,
Até sumir numa curva o lenço dela.

Se meu amor não regressar, irei também
À estação na hora de partir o trem.
E nunca mais assisto uma partida
Pra não lembrar mais daquela despedida.

Noel Rosa

19.1.08

Soneto dos Sonhos

Foi-se o tempo dos sonhos de menina
Com castelos, fadas, príncipe e dragão
E vieram com a vida os sonhos de mulher
Um caminho e você segurando a minha mão

Se o passado veio e só soube ferir
E nenhum de nós quis que fosse assim
Cicatriz nenhuma irá admitir
Que as feridas sejam curadas por mim

Se todas as razões que eu te dei
Não foram fortes
Para te encantar

Eu prefiro ser como sempre serei
Eu prefiro a morte
A não poder sonhar

Vanessa de Mello Brito


"Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer..."

Vinicius de Moraes

16.1.08

LISTA DE TAREFAS

Abandonarei as formas de expressões finitas,
Abandonarei a música dos dias e das noites,
Abandonarei os amores improvisados e fáceis,
Abandonarei a procura da ciência imediata
Serei a testemunha de um mundo que caiu,
Até que te manifestes na tua Parusia.

Aceitarei a pobreza para que me dês a plenitude,
Aceitarei a simplicidade para que me dês a multiplicidade,
Descerei até o fundo da mina do sofrimento
Para que um dia me apontes o céu da paz.

Minha história se desdobrará em poemas:
Assim outros homens compreenderão
Que sou apenas um elo da universal corrente
Começada em Adão e a terminar no último homem.

Murilo Mendes

15.1.08

Presença

Andamos
Por estas mesmas ruas
Estas mesmas livrarias
Os mesmos rostos de outro dia.

Caminhamos
Por estes mesmos lugares
Debaixo deste céu
Entre esses pilares.

Hoje,
sozinha,
um outro dia no mundo:

vejo você em tudo.


Vanessa de Mello Brito

Estrelas

Há estrelas brancas, azuis, verdes, vermelhas.
Há estrelas-peixes, estrelas-pianos, estrelas-meninas,
Estrelas-voadoras, estrelas-flores, estrelas-sabiás,
Há estrelas que vêem, que ouvem,
Outras surdas e outras cegas.
Há muito mais estrelas que máquinas, burgueses e operários:
Quase que só há estrelas.


Murilo Mendes

14.1.08

Conversa com a razão

-O que te faz tão triste?

-Este mundo, estas pessoas...Esta vida.

-O mundo? Vês estas árvores, estas flores? Elas lhe parecem tristes? Não, elas não são tristes.
Elas, mesmo em meio a tempestades, continuam a viver. Dão cores ao mundo, sem pedir nada em troca.

As pessoas? Talvez elas sejam ruins e lhe façam sofrer. Mas foi você que as deixou fazer isso, e não tomou o cuidado necessário com o mais egoísta de todos os seres: o humano. Nascemos sozinhos e morremos sozinhos. Entre tudo isso, algumas valerão a pena... E muitas te machucarão. Porém aquelas poucas te farão companhia, e farão você sorrir simplesmente por elas existirem. Basta saber enxergá-las.

Esta vida? As crianças choram ao nascer, isso é fato. Porém ninguém ri como elas. Ninguém ri tão verdadeiramente como as crianças. E ninguém vê o mundo com tanta clareza e tantos sonhos quanto elas.. É o início da vida, o presente que lhe foi dado.
Quem sabe a vida fique sofrida ao longo do caminho, quem sabe você a considere triste e inútil... A culpa, porém, não é da vida, nem do mundo, e nem da maldade das pessoas.

A culpa é toda sua.

Vanessa de Mello Brito

13.1.08

Incompletude

Munch - nude by Wicker Chair

Algumas coisas doem mais do que um corte no pé, deslocar a mandíbula ou perceber que o seu braço está quebrado.
Algumas coisas preocupam mais do que notas para sair, contas para pagar e se vai dar tempo de fazer tudo aquilo que você quer fazer.
Algumas pessoas aparecem e somem na sua vida, e você não liga. Mas às vezes, você liga. E passa a ligar todas as noites. Elas estão lá para fazer diferença nisso tudo, nesta vida.

E então vem o resto. Os dias, a companhia, as conversas, a evolução das conversas, os programas de índio que ficam tão bons quando existe alguém que vale a pena de verdade; as coisas únicas que nunca se repetirão, de que você vai se lembrar por toda a sua vida. Os caminhos segurando as mãos, as risadas, os dias de sol e de chuva. O abraço pelo frio, o carinho inesperado. Os olhos, sempre os olhos. E como você achou alguém com quem gostasse tanto de conversar.

Mas existe sempre aquela palavra que fica engasgada, trancada. Aquela que você não ousa falar. E que talvez, deveria.
Talvez fosse a coisa mais bonita que você falaria para alguém, mas você não fala. Não pelo medo do corte no pé, de quebrar o braço, ou de quebrar a cara. Mas pelo medo de ferir um coração, um coração que bate tão forte e que está ali, esperando o seu abraço.

O que existe é sobretudo o medo. O medo do decorrer das coisas, da rotina, do tempo passando. O medo de não conseguir deixar as coisas como estão, pois você tem que fazer ainda tudo aquilo que você quer fazer, e as coisas são assim. Mas será que elas têm que ser sempre assim?

Sempre a palavra engasgada, o choro de fuga, o coração batendo.
Sempre a sensação de poder ter dito algo mais, de ter ficado um minuto a mais, de ter pensado um pouco mais, de ter dado um abraço a mais.

Sempre a sensação de não ter feito tudo aquilo que você queria fazer. E que talvez, deveria.

Vanessa de Mello Brito

12.1.08

errar é humano.
persistir no erro é divino.

O homem, a luta e a eternidade

Adivinho nos planos da consciência
dois arcanjos lutando com esferas e pensamentos
mundo de planetas em fogo
vertigem
desequilíbrio de forças,
matéria em convulsão ardendo pra se definir.
Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades,
o mundo ainda é pequeno pra te encher.
Abala as colunas da realidade,
desperta os ritmos que estão dormindo.
À guerra! Olha os arcanjos se esfacelando!

Um dia a morte devolverá meu corpo,
minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins
meus olhos verão a luz da perfeição
e não haverá mais tempo.

Murilo Mendes

NOTURNO RESUMIDO

A noite suspende na bruta mão

que trabalhou no circo das idades anteriores
as casas que o pessoal dorme comportadinho
atravessado na cama
comprada no turco a prestações.

A lua e os manifestos de arte moderna
brigam no poema em branco.

A vizinha sestrosa da janela em frente
tem na vida um camarada
que se atirou dum quinto andar.
Todos têm a vidinha deles.

As namoradas não namoram mais
porque nós agora somos civilizados,
andamos no automóvel gostoso pensando nu cubismo.

A noite é uma soma de sambas
que eu ando ouvindo há muitos anos.

O tinteiro caindo me suja os dedos
e me aborrece tanto:
não posso escrever a obra-prima
que todos esperam do meu talento.

Murilo Mendes

11.1.08

quero dormir

isto
não é um protesto
é uma prece.

sociologia
às 7 da manhã

ninguém merece.

10.1.08

Incômodo

Dois irmãos
Com os mesmos olhos
me olham

Um
[mais claro]
Acende o cigarro
Espera o café

O outro me aponta
Me sorri, desponta
Quem ele pensa que é?

Vanessa de Mello Brito

Entusiasmo

Por uns caminhos extravagantes,
irei ao encontro desses amores
- por que suspiro - distantes.

Rejeito os vossos, que são de flores.
Eu quero as vagas, quero os espinhos
e as tempestades, senhores.

(...)

Cecília Meireles

c.m.

Menino tão bonito
Que a vida fez tão triste
O meu amor é a prova
De que a felicidade existe

Menino tão desiludido
Que se encontrou em meu caminho
As minhas mãos são a prova
De que não está sozinho.

Vanessa de Mello Brito

9.1.08

Soneto do amor verdadeiro

Eu, que mergulhada no torpor
Que a vida inteira não soube curar
Quero-te para amar e para o amor
Que em seu corpo pude encontrar

Se nesta terra resolvi findar
A minha mágoa desaparecida
Secaram as lágrimas que ousei chorar
E os desencantos de toda a vida

Que venha a luz clarear meu dia
E a noite inteira
Lâmpadas acesas

Que venham você e a poesia
Na corredeira
A espantar tristezas

Vanessa de Mello Brito

Sophia

Tão pequenina, menina!
Dá cambalhotas a gargalhar
Sorri, me olha
E me chama para brincar.

26-12-07

Canção para te fazer companhia

Eu não te amo, menino.
Se o disser será engano
Outras falaram que te amaram
Outros falaram "Eu te amo"
Eu e você amamos outros outrora
Se eu o disser, será mentira.

Pois o meu amor não pertence a esta terra
A este amor mortal dos mortais
Ao vai-e-vem das estações
Àqueles que traem seus corações

Eu não te amo, meu menino
Não acredite em palavras que calam
Acredite em minhas mãos
E no que meus olhos te falam

E se disse que te amo
Se por acaso eu te disser
Te disse como um anjo,
Não como mulher.

E se disser que te amo
Sem o medo de quem erra
É porque meu amor é muito puro
Para pertencer a esta terra

Vanessa de Mello Brito

26-12-07


7.1.08

Teoria subjetiva do verdadeiro valor

Podem ficar com os créditos
com o lucro
com o valor-trabalho
e com a mais-valia.

Não preciso de Economia Política
Quando tenho a Poesia.

Vanessa de Mello Brito

6.1.08

Nascer é muito comprido

a Murilo Mendes e Alberto Caeiro

Não, não há primavera que volte
Nem inverno, nem verão.
Outras flores florirão
Aquelas tiveram sua sorte.

Não é rio, nem riacho
São outras as águas
Outras pessoas as choraram
Foram outras as mágoas

Anos e anos se passaram
Você ainda me quer
Não sou mais aquela menina,
Sou eu, mas outra mulher.

Vanessa de Mello Brito

mas que merda é essa?

rimando riste com triste
rimando rol com mol
rimando seu com meu

até eu.


Vanessa de Mello Brito

21.12.07

Todo o tempo do mundo
Dura muito tempo
e cansa.

Prefiro viver cada momento
Um poema,
Uma dança.

Todo o tempo do mundo
Dura muito tempo
erro que insiste.

Todo o tempo do mundo
Pra sempre
Para mim não existe.


Vanessa de Mello Brito

20.12.07

definição

Aquela ali, entre livros e sonhos.
Aquela ali.
Sou eu, suponho.

Vanessa de Mello Brito

17.12.07

único

um universo infinito
os universos dentro dele
planetas escondidos
quatro estações
astros, mundo, tempo,
bichos, sentimentos, descobertas,
anseios,
razões para sonhar,
seis bilhões de pessoas...

Só ele me faz suspirar.


Vanessa de Mello Brito

14.12.07

Conversa com o tempo

Todo o tempo, todo o mundo e toda forma
Me remetem ao macio do seu olhar
Toda a fuga que por dentro me transforma
Sabe exatamente aonde quero chegar

Se em seu beijo eu moraria eternamente
Se por seu abraço trocaria a minha vida
Se os segundos passassem menos rápido
Se ao chegar, não tivesse uma saída

Quem sabe assim me daria por satisfeita
E finalmente faria as pazes com o tempo
E finalmente o teria ao meu lado
Sem ter que ir embora e morrer por dentro

Pois a cada dia a saudade me corrói
E se nasci querendo sentir tanto
Mal sabia o quanto iria sofrer
E o quanto iria derreter em pranto

Mesmo assim, farei as pazes com o tempo
E não ligarei se não houver lua ou estrelas
Pois quero escuridão na noite em que te vir
E com o seu brilho, não poderei vê-las

Lembrarei das horas que passaram muito rápido
E dos minutos que da mesma forma passarão
Quereria que meu único compasso
Fossem as batidas do seu coração.

Vanessa de Mello Brito

a ordem dos fatores

um produto
do produto
do produto.

um emaranhado do que fizeram de mim.
uma escolha que escolho
que já haviam escolhido
para eu escolher
antes mesmo de nascer

um não, um sim premeditado
uma cabeça fechada
preenchida de nada.

um instinto artificial
uma agressão enraizada,
individualização generalizada.

sou o que ouço,
o que vejo,
o que leio,
o que sinto.
E pago por essa sensação
E pago por essa condição

para me parecer com o que sou.

11.12.07

Homenagem a Fernando Pessoa



Não sou indigna de ti, bem o sabes, Fernando,
Não sou indigna de ti, basta saudar-te para o não ser...
Eu tão contígua à inércia, tão facilmente cheia de tédio,
Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te,
E embora não o conhecesse, nascida cem anos após o seu nascimento,
Sei que me amaste também, que me conheceste, e estou contente.
Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste.

(...)

Nos teus versos, a certa altura não sei se leio ou se vivo,
Não sei se o meu lugar real é no mundo ou nos teus versos.

(*mal*Adaptado de Álvaro de Campos - Saudação a Walt Whitman)

6.12.07

Despedida

Eu não queria que você me assistisse definhar.
Não queria ter essas mãos trêmulas, esse sorriso amarelo. Essas pernas cansadas que mal conseguem se levantar. Essa pele sem vida, enrugada, esticada, revestida. Esses olhos que já não brilham mais, não esperam mais, não enxergam mais... Talvez eu devesse ter morrido antes.
Por acidente, omissão, imperícia, imprudência.
Cólera, cólica, impaciência.
Eu já deveria ter morrido há muito tempo.

E você se lembraria de mim com aqueles cabelos negros. Aquela boca vermelha. Aquela pele macia. Aquelas mãos firmes e compridas, as unhas vermelhas de que você tanto gostava. Eu queria que você guardasse essa lembrança - e só essa - de mim. Mas eu não morri. E nem vivi.
Pois eu fiquei entre a vida e a morte mais vezes do que poderia ter escolhido, e escolhi esta vida que levei. Esta vida de pessoa normal, que cumpriu todos os protocolos. Casei, como meus pais queriam, e me formei em Direito. Aumentei meu sobrenome e coloquei nesse mundo ainda mais criaturas a sofrer - já não bastasse o que eu sofri.
E o que não vivi, o que sequer senti, o que não ousei sonhar me dói. E eu vi a vida passar pelos meus olhos – e nunca tive coragem suficiente para mudar nada.
Agora tremo. Tremo para escrever estas linhas, para derrubar estas lágrimas, para virar a minha cabeça.
Tremo para chegar até você e pedir desculpas por nunca ter sido verdadeira em tudo o que disse, já que parte de mim esteve sempre insatisfeita.
E penso no que teria sido se tivesse tomado outros caminhos, que não tive coragem de tomar. Nossos filhos cresceram e eu fiz todo o dinheiro que meu pai me ensinou a fazer, como se fosse o suficiente.

Mas nunca foi suficiente. Nunca foi o bastante. Nem o dinheiro, nem a vida, nem as viagens, nem os sentimentos ou os livros. E eu nunca senti o bastante ou fui feliz.

Eu nunca tive a coragem de ser eu, verdadeiramente eu, simplesmente eu.

E agora é tarde demais.

Vanessa de Mello Brito

Tédio

Passo pálida e triste. Oiço dizer
"Que branca que ela é! Parece morta!"
E eu que vou sonhando, vaga, absorta,
Não tenho um gesto, ou um olhar sequer...

Que diga o mundo e a gente o que quiser!
-O que é que isso me faz?... o que me importa?...
O frio que trago dentro gela e corta
Tudo que é sonho e graça na mulher!

O que é que isso me importa?! Essa tristeza
É menos dor intensa que frieza,
É um tédio profundo de viver!

E é tudo sempre o mesmo,eternamente...
O mesmo lago plácido,dormente
E os dias,sempre os mesmos,a correr...

Florbela Espanca

5.12.07

Dele

Ontem ela o viu. E as horas passaram ainda mais rápido do que na vez anterior. Ontem, ela teve os seus abraços... E ele a teve ainda mais inteiramente do que na vez interior.
“-Não há nada frio em mim” – Ele disse. E ela nunca havia sentido um coração bater assim tão rápido, tão perto, cada vez mais perto dela.
As mãos dele invadiram o seu corpo suave e audaciosamente... e tão carinhosamente que ela não ousou pará-las – como faria em qualquer outra ocasião. Mas ele a tem para si de uma forma tão completa. Seu corpo, seus sonhos, suas metas. Suas palavras e todos os seus pensamentos... Sim, ele a tem. Em meio a passantes, olhos envergonhados, noites, estrelas, sussurros, respirações.
E o desejo de ser dele só aumenta em meio ao tempo que passa rápido demais – ainda mais rápido do que na vez anterior. E ela o quer mais, ainda mais do que na vez anterior.

Ela já era dele, inteiramente dele.
Mas agora é ainda mais dele do que na vez anterior.


Vanessa de Mello Brito

4.12.07

O Passante

se tivesse mais coragem
o convidaria para um café
ou para uma vida inteira comigo

Vanessa de Mello Brito

30.11.07

Obituário

Não há bandeira que me faça erguer
Nem causa alguma que me faça suspirar
Não há líder a me convencer
Ou me tolerar.

Não vale a pena lutar a luta alheia
Nem se no nome houver uma causa nobre
Pois alguém, em algum lugar,
Gravará o seu ego sobre.

Não há coexistência neste mundo
Nem altruísmo neste plano
Para acordar toda essa gente
Ou resolver o problema humano

Estão todos muito preocupados
Em ser o que não se é
Comprar o que não precisam
Para convencer quem não se quer

Não vejo onde vou parar
E não sei viver no talvez
Não há, para mim, por que lutar
Ou viver a vida medíocre de vocês.


Vanessa de Mello Brito

25.11.07

Eu poderia dizer o quanto você é interessante, mas outras pessoas te acham interessante.
Eu poderia dizer o quanto você é querido, mas outras pessoas também te acham querido.
Eu poderia dizer como o tempo passa rápido quando estamos juntos, mas isso já deve ter acontecido com outras pessoas que também te conhecem...
Ou como é bom fazer parte da sua vida.
Poderia falar do meu medo de nunca te escrever algo suficientemente bom, de não ser uma pessoa suficientemente boa.
Poderia falar como você é bonito, inteligente e o quanto admiro a sua sinceridade...E ainda assim não seria original.

Mas gostar de você como eu gosto, isso ninguém conseguirá fazer.


Vanessa de Mello Brito

23.11.07

eu gosto - parte 2

eu gosto de palavras simples
de beijos demorados
de pessoas boas
e de pão fatiado.

Vanessa de Mello Brito

eu gosto

eu gosto do cheiro da chuva
dos sentimentos mais puros
dos lugares mais vazios
e dos abraços mais seguros


Vanessa de Mello Brito

21.11.07

Quando tudo acaba

Há tantas bocas em tuas falas
Tantos olhares no teu jeito
Que quando ris ou quando calas
Dá mil voltas em meu peito

Teu passado deixou lembranças
Deixou marcas a nossa história
Já não somos mais as crianças
Que guardamos na memória

E se por alguma dessas ruas
Você tentar lembrar de mim
Serão cicatrizes tuas
Que te levarão ao fim

O teu amor é uma ferida aberta
Que se passou em meu caminho
Teu olhar, a flecha incerta
Que o deixou assim sozinho

E ao deitar, pensará em mim
Nos nossos sonhos, nossos amores,
Que construímos um a um
Entre beijos e pavores.

Guarde os versos que te escrevi
Os beijos que te dei,
As cartas que te fiz
E os dias em que te amei.


Vanessa de Mello Brito

16.11.07

As minhas lágrimas

É tarde, e a praia está vazia. São poucos os sinais de vida. Alguns pássaros, algumas pessoas longes, alguns peixes talvez, um senhor triste com um chapéu esperando sua morte, algumas crianças felizes com seus brinquedos coloridos, algumas mães vigiando-as com medo, alguns casais apaixonados hoje e frustrados amanhã, algumas conchas que provavelmente guardaram vida em alguma parte de suas existências... E a minha respiração.

O encontro entre céu e mar parece tão delimitado aqui de longe. E sempre estará longe. Eternamente longe. Inalcançavelmente longe. Evidentemente longe. Finalmente achei um sentido válido para a felicidade...Quanta ironia num sorriso triste.

Seguro minhas próprias mãos e tento confortar a mim mesma, como sempre fiz.
Pouco a pouco a água vem, e finca meus pés na areia.
Uma mais leve que a outra, as ondas. Ainda mais leves que a areia, e mais delicadas do que a brisa forte que faz os meus cabelos voarem.

E eu, que tantas vezes tentei fincar os mesmos pés na mesma areia com toda a minha força, sou simplesmente levada pelo barulho, por ondas que vêm e vão eternamente, incansavelmente, de um jeito tão bonito.

As mesmas lágrimas que derramei neste mesmo mar já são outras...E se misturam com as mesmas lágrimas que choro agora, e com as mesmas lágrimas que a chuva há de derramar.
Os mesmos pés que enterro no chão, enterrei outrora...Com outros sorrisos e outras pessoas.

Eu já fui a criança contente com o sorriso no rosto. Eu já fui a namorada do namorado. Talvez seja mãe algum dia e talvez envelheça, esperando a minha morte...

Agora sozinha, estou sozinha. Eu, a brisa, a areia e o mar infinito. E as minhas lágrimas. Sempre as minhas lágrimas.
Essas mesmas lágrimas que virão levemente me enterrar... Eternamente, incansavelmente, e de um jeito tão bonito.


Vanessa de Mello Brito

14.11.07

Então é você

Então é você
Que bem antes de mim
Diz o que eu queria dizer
Tão bem quanto eu diria.
E quem diria?
Ainda melhor

Acho que teu nome é poesia
E por isso todos te chamam

Então é você
Tua simples presença
Preenche a minha existência
Me faz ver o que eu não via.
E quem diria?
Ainda melhor

Acho que teu nome é vida
E por isso todos te querem

Então é você
Que quando fala
Instala a compreensão
De tudo que eu seria.
E quem diria?
Ainda melhor

Acho que teu nome é amor
E por isso todos te amam

E quando todos te chamam
Quem sou eu pra não chamar?

E quando todos te querem
Quem sou eu pra não querer?

E porque todos te amam
“eu sei que vou te amar”

Alice Ruiz e Estrela Ruiz Leminski

11.11.07

os versos dele.

quem diria que eu,
que sempre soube o que dizer

não encontraria palavras
quando encontrasse você.


Vanessa de Mello Brito
Ouço seu passo passar.
Cheiro de roupa lavada,
Camisa passada,
Neste belo dia.

Um bejo traje para disfarçar
Toda essa hipocrisia.

Vanessa de Mello Brito

aviltador

Sua mente
tão pequena..

Que pena!

Mal vale
um poema.

Vanessa de Mello Brito
Caminha a minha solidão,
Calminha.
Contando os passos
Para chegar em teus abraços,
Sozinha.

Vanessa de Mello Brito

Segredos

Guardo naquela gaveta
Poemas que nunca vão ler.

Guardo naqueles poemas
O que nunca tive coragem de ser.


Vanessa de Mello Brito

8.11.07

Condolências próprias.

Eu sempre tive tudo o que quis.
Materialmente e emocionalmente...
Não sofri grandes traumas.
Minha infância foi bonita, como todas as infâncias.
Eu amei, amei muito, e fui sempre muito amada.
Se foi passageiro, que pena! Ao menos, melhor que nada.

Eu tenho e sempre terei os melhores amigos do mundo,
E essa é, provavelmente, a minha maior certeza...
Que me trairá vez ou outra, como todas as certezas.
E não há no mundo mãe mais doce do que a minha.

Vi paisagens, nascer e pôr o sol,
Caminhei cedo pela estrada do meio do nada,
Li os livros mais lindos, que me fizeram chorar...
E as palavras mais belas nunca deixaram de me tocar.
Assim como a música,
Que mora comigo desde aquela minha infância,
Bonita, como todas as outras infâncias.
Eu sempre fui segura, ou menti sobre ser segura,
Com uma boa dose de orgulho.

Porém nunca fui feliz.

Eu tenho essa dor que faz parte de mim.
Que joga o mundo nas minhas costas.
Essa dor de quem se preocupa, de quem se gosta.
Essa dor que guarda nada mais do que um grande, imenso, interminável vazio.
Eu já estive feliz, isso é fato.

Mas nada disso me bastou.
Mas sempre o mundo veio e me mostrou que não era assim,
E sempre a vida veio e mostrou que não era pra mim.

Eu já estive feliz, isso é fato.

Mas eu fui sempre infeliz.

Vanessa de Mello Brito

7.11.07

é..

..tem dia que tudo cansa.

30.10.07

A limine

Numa prisão
Releio meus textos
Espalhados pelo chão
Como pretextos.

Numa canção
Ouço algo que toca
O meu coração
Virado do avesso

----

E você chega.
Segurando o livro que me lê
Me falando sobre o que sou
E ouvindo o que eu não deveria dizer.

E você fala.
Exatamente o que sonhei ouvir
Me sentindo como não deveria sentir
E não sei por quê.

E você cala.
Exatamente quando deveria calar.
Como ousa, assim, me encantar?
Como quem já me conhece há muito tempo...

E você olha.
Exatamente do jeito que deveria ver
E me deixa sem saber o que fazer
E sem saber o que sentir por dentro...

Eu desintegraria
Essa masmorra de poder
Para ser livre
Como e com você.

Vanessa de Mello Brito

28.10.07

Poeminha

Eu guardaria você numa caixinha de coisas boas,
Para que nunca pudesse machucá-lo.
Tiraria tua liberdade e tuas dores,
E abriria quando quisesse amá-lo.

Teu olhar substitui a minha lua
Teu coração reflete meu infinito
Meu silêncio caminha pela rua
Apressado e aflito.

Eu queria, quero e você me diz
Que o tempo nunca há de passar
Porque o tempo em que eu julgava ser feliz
Ano após ano, deixei de amar

E eu sei que guardo todas as lembranças
Do passado seco, melhor assim...
Mas não quero magoar o seu presente
E destruir o que há de você em mim.

Eu queria poder curar tuas feridas
Queria poder te fazer sonhar
Queria te escrever as coisas mais bonitas
Queria nunca te machucar.


Vanessa de Mello Brito

24.10.07

"Que me perdoem se eu insisto neste tema
Mas não sei fazer poema ou canção
Que fale de outra coisa que não seja o amor"

Toquinho/Vinicius de Moraes

13.10.07

A Canção Maldita

Eu sorrio um sorriso triste
Caminho o caminho dos miseráveis
Tentei falar, não consegui
Todas as coisas inacreditáveis

Fiz amor, dor, poesia
Fiz calor, cor, drama
Fiz mágica, fantasia.
Com a dor de quem se ama.

Mas nada me basta nessa vida
E nada me basta nesse plano
Serei sempre a esquecida,
A superada, a mal-vivida,
A por engano.

Dê-me todas as suas flores
Roube toda a minha cor
Porque, de todas as dores,
Eu escolhi o amor.

Vanessa de Mello Brito

12.10.07

Pra nunca mais voltar

Sempre andando
Sempre a te procurar
Sempre sorrindo
Pra nunca mais voltar

Se me lembro de você
Em algum lugar
Mudo o pensamento
Tento não chorar

Se ando sozinha
Entre pessoas e cafés
Se a vida é minha
Entre nossos pés

Lembro daqueles dias
Costumava te esperar
Lembro da agonia
Pra nunca mais voltar

Posso te encontrar
Respirando novos ares
Respirando novos amores
Num desses lugares

Posso até pensar
Em te reconhecer
Mas vou fingir que não
Pra nunca mais sofrer

Mas se deixo as dores
Escorrerem pelo chão
Caminho sem amores
Eu e a solidão

E se não tiver mais jeito
De viver nesse lugar
Ignoro o dia perfeito
Que deixei passar

E naqueles dias
Eu costumava cantar...
Enterro em meu peito
Pra nunca mais lembrar

E se por acaso
Você me telefonar
Me entrego ao orgulho
Pra nunca mais voltar.

Vanessa de Mello Brito

9.10.07

Eu já não me importo

Eu já não me importo
Com o que vão dizer
Quando eu morrer.

Se fui loira, ruiva, morena
Se fui rica, pobre, que pena
Se fui muito linda
Ou pouca dor.
Se fui muita vida,
Se fui muito amor.

Eu já não me importo
Com suas vaidades
Com suas opiniões
Ou suas vontades
Nem com seus carinhos

Eu já não me importo se está sozinho
Desde então.
Eu não me importo se o seu sorriso é triste,
Ou se me sorri.
Eu não me importo se me venceu
Ou se desisti.
Porque estarei aqui, e estarei pra sempre
Estarei comigo e com toda a gente
Que está exatamente
Onde deveria estar.
Eu já não me importo, pois voei com o vento
E mergulhei no ar.
Eu já não me importo e não responderei
Quando me chamar.
Eu já não me importo, não me importei
E não me importará.

Vanessa de Mello Brito

Um brinde

Brindemos nessa data fatídica
A manifestação da raiva e da malícia.
A preservação da igualdade jurídica
Nessa terra fictícia.

Brindemos uma constituição que implora
Um código civil que mente
A mãe que sem dinheiro, chora
A bandeja e o servente

Brindemos o nosso garboso sistema
De palavras memoráveis
Brindemos os nossos poemas
Com soluções impraticáveis

Brindemos a liberdade de expressão
de quem não se expressa...
De quem morre pela razão
E de quem não morre, reza.

Brindemos a igualação dos desiguais
O grito dos inaudíveis
O triunfo dos imorais
E a visão dos invisíveis

Brindemos a nossa terra
Verde e amarela, mãe gentil.
Brindemos o enterro de quem erra,
Meu Brasil.


Vanessa de Mello Brito

8.10.07

- Vanessa?
- oi
- Sabe aquela frase "No fim tudo dá certo, se não deu certo é pq não chegou ao fim"?
- sei
- É mentira né?
- É.
- Ah tá, só pra confirmar.

4.10.07

Céu alaranjado

"Pelo menos você não sofre", ele me disse. E sorriu.
O fato de não gostar de ninguém não faz com que eu não sofra. Deixa um vazio. Talvez eu devesse gostar dele, mas isso ele nem deveria saber.
Fechou a porta do carro, o sol estava quase sumindo. Gosto quando fica tudo laranja, fico mais bonita. O vento já não me incomoda. Do outro lado da praça, um casal andava de mãos dadas. Se não amo ninguém, não significa que não sinto nada. Para o casal, bastava um ao outro. Eles nem viram o sol se pôr.

"Pelo menos você não sofre", ele me disse.

1.10.07

Ninguém merece o meu amor.

Guardo em mim amor demais.
Amor muito doce, muito profundo.
Amor incondicional e infinito.
Um amor que já não cabe mais em mim.

Mas não, ninguém merece o meu amor.

O meu amor é uma pétala de rosa. Uma tarde de domingo. O meu amor é puro, simples e sincero. O meu amor é uma criança que dança girando para ver o vestido girar junto.É o brinquedo novo que ainda não foi desembrulhado. O meu amor é puro, desabrochado. O meu amor é intocável como um anjo, mais brilhante do que o sol.
E se alguém tiver esse amor, vai sorrir sinceramente, vai entender a vida. Vai dançar comigo sem música alguma. Vai se descabelar.
Eu não quero um amor de cinema.Eu quero um amor de verdade. Um amor que segura a minha mão com as duas mãos, para esquentá-la. Um amor que diz bom dia e boa noite. Que marca mais sorrisos do que lágrimas. Que tem certezas. Que vai, e sempre volta. Que olha, mas não fala. Que sente, mas não cala. Que vive só de amor.

Mas ninguém merece o meu amor.

17.9.07

Eu não deveria.

Se nossas mãos não se encontram, eu não me importo.
Desde que tenho o seu olhar com o meu.
Se nossos beijos são sonhos, eu não me importo.
Desde que tenho o meu coração com o seu.

À noite encontro você. Seus ombros largos. Seus grandes olhos castanhos. Sua voz tão aconchegante que adormeceria ouvindo ela numa tarde de domingo. Eu não deveria te querer, eu sei, porque tantas te querem. Eu não deveria me envolver, eu sei, porque seria perder tanto amor. Mas quando te tenho aqui perto, esqueço do mundo, esqueço de tudo. E deito na tua voz. Nos meus sonhos, em teus ombros largos. Nas tuas mãos que não toco. Na tua boca que não beijo. No seu coração, que não pertence a mim.

À noite penso se você pensa em mim. Mas somos ambos orgulhosos, e ambos distantes. E ambos orgulhosos. E amantes. Nos sonhos, no porvir. Quanto te olho, sinto longe... O que de perto, não deveria sentir. Quando te olho, sinto profundo... O que não deveria existir.

Eu moraria em sua voz, em seus ombros. Eu adormeceria em seus olhos olhando nos meus. Eu te faria feliz nas tardes ensolaradas e deixaria você escolher a música que toca. Eu procuraria o seu colo quando não visse outro caminho. Eu aprenderia a fazer o seu doce favorito, e esperaria você ligar no final da tarde. Será que alguém já te disse o quanto você é bonito?

Você é tão bonito.


Vanessa de Mello Brito

31.8.07

E assim, de repente,
Encontro você
E assim, de repente,
De um jeito tão diferente
Do que jamais pensei em querer.

E passo os dias a contar
Os dias que restam para ser meu.
Teus olhos, teu sorriso, tua boca.
Seus abraços abraçados com os meus...

Como eu quero ter você perto de mim
Sei que um dia irei parar de sofrer
Como pude te querer assim?
Como pude nesse tempo não te ter?

Pois nos teus olhos abraço o infinito
Em tuas palavras durmo sem acordar
Em seu carinho, te acho tão bonito.
E ainda hei de sofrer em esperar

Porque no meio de tudo, encontrei você.
E a minha vida agora tem outra razão...
Porque no meio do nada, eu tenho você.
E já não tenho mais o meu coração...

Somos tão parecidos, e é tão diferente
Esse meu jeito de querer, enfim.
Pois tão longe encontrei, tão de repente
Tudo o que mais gostava dentro de mim.

E no meio de tudo, não sou mais triste
Mesmo que me perca, pensando em ti ou em nós dois
Porque no meio do mundo, você existe
E todo o resto fica pra depois.


Vanessa de Mello Brito

27.8.07

I thought that I could not be hurt

I thought that I could not be hurt;
I thought that I must surely be
impervious to suffering-
immune to pain
or agony.

My world was warm with April sun
my thoughts were spangled green and gold;
my soul filled up with joy, yet
felt the sharp, sweet pain that only joy
can hold.

My spirit soared above the gulls
that, swooping breathlessly so high
o'erhead, now seem to to brush their whir-
ring wings against the blue roof of
the sky.

(How frail the human heart must be-
a throbbing pulse, a trembling thing-
a fragile, shining instrument
of crystal, which can either weep,
or sing.)

Then, suddenly my world turned gray,
and darkness wiped aside my joy.
A dull and aching void was left
where careless hands had reached out to
destroy

my silver web of happiness.
The hands then stopped in wonderment,
for, loving me, they wept to see
the tattered ruins of my firma-
ment

(How frail the human heart must be-
a mirrored pool of thought. So deep
and tremulous an instrument
of glass that it can either sing,
or weep).

Sylvia Plath

21.8.07

Ela tem chorado
Vem sentindo frio
E já não lhe importa
O coração vazio

Ela tem tentado
E está discutindo
E se lhe perguntam
Ela está mentindo

Porque nada
Nada está bem.
E nada mais.
E lá no fundo
Ela só queria
Um pouco de paz

Ela já não sente
Não consegue chorar
E já não sabe
Se vai acordar

Não consegue escrever
Não consegue enxergar
Não sabe por que viver
Não sabe por que tentar

Ela tem tentado
Com toda a inocência
Esquecer o peso
Da sua existência

Ela está cansada
De tanto vazio
Ela tem tentado,
Tem sentido frio

Ela vê o fim
Caminha pela casa
E espera a morte
A cada dia que passa.


Vanessa de Mello Brito

25.7.07

Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida." (Clarice Lispector)

28.6.07

Depois de tanto tempo

Depois que tudo acabou, já não me lembrava
Das antigas promessas, do seu adidas
Das suas conversas, das suas feridas
Que eu tanto lutei para curar.

Depois de tanto tempo, tantos dias
Em que nem senti o tempo passar.
Depois de te esquecer, como eu queria
Não sei porque decidiu voltar.

Sombras secas, conversas silenciadas
Já não te via como antiga namorada
ou antigo amor.

Palavras suspensas, cabelos bagunçados
Teu sorriso completado
Com tua dor.

Vanessa de Mello Brito

25.6.07

"Desta vez me deixa
ser feliz.
Nada aconteceu a ninguém,
não estou em parte alguma,
simplesmente sucede
que sou feliz
pelos quatro costados
do coração, andando,
dormindo ou escrevendo.
Que posso fazer, sou
feliz.

(...) Tu ao meu lado na areia,
és areia
tu canta e és canto,
o mundo
é hoje minha alma:
canto e areia
o mundo
é hoje a tua boca;
me deixa
em tua boca e na areia
ser feliz,
ser feliz porque sim, porque
respiro
e porque tu respiras,
ser feliz porque toco
teu joelho
e é como se tocasse a pele azul do céu
e sua frescura.

Hoje me deixa
só a mim
ser feliz,
com todos ou sem todos,
ser feliz
com a relva
e a areia,
ser feliz
com o ar e a terra
ser feliz
contigo com a tua boca,
ser feliz."

Pablo Neruda

24.6.07

Já era tempo

Já era tempo do sol renascer
Pelos campos floridos, voltar a sorrir
Já era tempo do mundo crescer
Em mil cores tecer, bordar, colorir

Já era tempo de tempo de paz
Já era tempo de cantar a canção
De ouvir a palavra que me satisfaz
De voltar a bater o meu coração

Já é tempo de voltar amar, amor
Já era tempo de sentir razão
De partir, e de novo chegar, amor
De ver sorrir o meu coração

Já é tempo de sentir saudades
Sem ida e vinda,
Sem volta ou ida.
Já era tempo de sentir paixão
Há muito tempo desaparecida.

Vanessa de Mello Brito

18.6.07

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.


Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.


Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz perenizada.


Vinícius de Moraes

15.6.07

Pra vida inteira

Juras completas
Sinceras, indiscretas
Além do sufoco
De te querer mais um pouco.

Era tarde, vazia.
Eu esperava você
E sentia o sentido
Real de viver.

E acreditamos no amor infinito
Na nossa infância, tudo tão bonito
Tudo infinito havia de ser...

Se a nossa existência é tão passageira
Por que é que pra vida inteira
Nosso amor haveria de ser?


Vanessa de Mello Brito

14.6.07

Choro bandido

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa, são bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas e os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim: você nasceu para mim, você nasceu para mim
Mesmo que você feche os ouvidos e as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim: me leve até o fim, me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa, são bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes seus amores serão bons


Edu Lobo e Chico Buarque



Esse é um post para o meu querido amigo Cylo :)

13.6.07

Dias Felizes

Sorrisos, lembranças
Do bolo, das massas,
Das nossas infâncias
Do tempo, que passa.

Das bonecas pintadas
Com quem conversamos
Das velhas piadas
Que tanto contamos

Dos monstros terríveis
Aliens, bruxas
Fantasmas temíveis
Sandálias da Xuxa

Das tardes inteiras
Astronautas, presidentes
Sorrisos e bagunça
De quem queria ser gente.

Pendurei naquela parede
A foto de todos na escada
Seria tudo para sempre
Com a moldura empoeirada

Pendurei naquela parede
Os sorrisos que levo comigo
A cama, a rede,
Os sonhos que sonhei contigo.


Vanessa de Mello Brito

12.6.07

Lugar-comum

Aprendi a sonhar
Cansei de viver
Eu fingi amar
E tentei sofrer

Mas cansei de tudo
Cansei de você
Cansei do mundo
Cansei de reler

E a angústia pálida
Me envolve fria
Já não sinto nada
Fora a agonia

De te ver sempre
Com esses mesmos olhos
Esses mesmos problemas
Esses mesmos poemas.

-

Olhos me olham do mesmo jeito
Que outros olharam
Você me diz a mesma coisa
Que outros falaram
Eu sinto a mesma coisa
Que outrora senti:

Enjôo de você
Enjôo do mundo
Enjoei de mentir.

Vanessa de Mello Brito

7.6.07

Simples

Eu fico com a simplicidade das letras
A simplicidade dos gostos
A simplicidade dos barcos de papel

A simplicidade do vento
A simplicidade dos sonhos
E a simplicidade das estrelas lá no céu

Fico com a simplicidade dos nomes na areia
Do sorriso sincero a um estranho
Ouvir minha música favorita no rádio
E abrir uma caixa de chocolate

A simplicidade das crianças
E dos sentimentos bons.
A simplicidade das tardes da vida
Que nada e tudo têm de especial.

Vanessa de Mello Brito

6.6.07

Ouvir Estrelas

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizes, quando não estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

Olavo Bilac

Enquanto teu nome existir

Já é noite,
Descanso,
Enquanto os outros dormem.
Já é tarde,
Escrevo,
Enquanto os astros somem.

A Lua sumiu
As estrelas sumiram:
Não as ouvi falar.
O tempo passou
A noite chegou:
Não te ouvi cantar.

O mundo girou
E aqui
Eu estou
No mesmo lugar.

Não adianta pensar
Em tentar desistir.
Enquanto teu nome existir,
Eu não vou dormir.

Vanessa de Mello Brito

Se eu fosse música

Se me desejas,
Desejo.
Se me amas,
Te chamo.
Se me queres,
Te quero.
Se diz que sim,
Te espero.

Se me tocas,
Me toque
Se te fujo,
Me segue.
Se te estranho,
Me guie
Se te chamo,
Te quero.

Se já disse,
Então venha.
Se toca,
Me toque.
A tua música
Em mim.
As tuas únicas,
Enfim.
Inteiras tuas,
Assim.

Vanessa de Mello Brito

4.6.07

Não: devagar

Não: devagar.
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.

Devagar...
Sim, devagar...
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar...
Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima...

Talvez isso tudo...
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
O que é que tem que ser devagar?
Se calhar é o universo...
A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?

Álvaro de Campos

1.6.07

Se...

Se por acaso
A gente se cruzasse
Ia ser um caso sério.
Você ia rir até amanhecer,
Eu ia ir até acontecer
De dia um improviso,
De noite uma farra
A gente ia viver
com garra
Eu ia tirar de ouvido
Todos os sentidos
Ia ser tão divertido
Tocar um solo em dueto
Ia ser um riso
Ia ser um gozo,
Ia ser todo dia
A mesma folia
Até deixar de ser poesia
E virar tédio
E nem o meu melhor vestido
Era remédio
Daí, vá ficando por aí,
Eu vou ficando por aqui,
Evitando,
desviando,
Sempre pensando,
Se por acaso a gente se cruzasse...

Alice Ruiz

31.5.07

Mirror

I am silver and exact. I have no preconceptions.
What ever you see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike .
I am not cruel, only truthful---
The eye of a little god, four-cornered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is a part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.
Now I am a lake. A woman bends over me,
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands.
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.

Sylvia Plath

27.5.07

Eu escrevi um poema triste

Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!

Mário Quintana

24.5.07

ASAS E AZARES

Voar com a asa ferida?
Abram alas quando eu falo.
Que mais foi que fiz na vida?
Fiz, pequeno, quando o tempo
estava todo ao meu lado
e o que se chama passado,
passatempo, pesadelo,
só me existia nos livros.
Fiz, depois, dono de mim,
quando tive que escolher
entre um abismo, o começo,
e essa história sem fim.
Asa ferida, asa ferida,
meu espaço, meu herói.
A asa arde. Voar, isso não doi.

Paulo Leminski

23.5.07

:)

Oi pessoal!
Obrigada por estarem acompanhando o blog, hoje postei alguns poemas mais antigos que gosto bastante.
Agora os comentários estão liberados se quiserem reclamar de algo :)

Um beijo grande

Noites em claro

As ruas desse lugar

Devem se lembrar

Das noites em claro

Que eu passei


As paredes do meu quarto

Guardam em segredo

Todas aquelas lágrimas

Que eu chorei


As horas passam rápido,

A vida passa rápida,

E o mundo gira rápido demais:

Por isso corro.


E com mais uma noite em claro

Que me deparo:

Perdi meu sono,

Não perdi meus sonhos


Vanessa de Mello Brito – 2006

Ser poesia

Para Paulo Leminski que estava comigo todas as noites.

Para Vinicius de Moraes que estava comigo todos os dias.


Ah, esse sentimento repentino de Paixão

E alegria

Ah, esse tempo incalculável de inspiração

E agonia.


Quereria, eu, então, ser pura poesia.


Vanessa de Mello Brito 10/02/2004

Envelhecer (O ciclo natural da vida)

Vou me orgulhar das minhas rugas

Que contam histórias

Que marcam sorrisos

Que guardam memórias


Vou me orgulhar do meu coração

Que baterá, mesmo mais fraco,

Depois de tanto sonhar

Depois de tanto sofrer

Mas, sobretudo, de amar.


Vou me orgulhar da minha vista cansada

De tanto ver as maravilhas do mundo

De tanto ler livros e mais livros

De tanto chorar por amores profundos.


Vou me orgulhar das minhas mãos trêmulas

Que tanto seguraram as suas

E dos meus pés cansados

Que caminharam por todas essas ruas.


Espero que minha mente não falhe

E eu me lembre o quanto eu senti

Para pode contar aos pequenos netos

Aquilo tudo que vivi.


Vanessa de Mello Brito – 2006

"... mas o que eles não sabem levar em conta é que o poeta é uma criatura essencialmente dramática, isto é, contraditória, isto é, verdadeira.E por isso, é que o bom de escrever é que se pode dizer, como toda a sinceridade, as coisas mais opostas.Sim, um autor que nunca se contradiz deve estar mentindo."
Mário Quintana

Ele faz cinema

Seu sorriso fácil
Sua barba mal feita
Seu cabelo torto
Sua risada perfeita

Ele faz cinema
Disse que eu era bonita
Ele fez a cena
E entregou a fita

Gosta das belas canções
Que cresceram comigo
Gosta de Vinicius,
Gosta do Chico.

Eu nem sei direito
O que disse do Tom.
Só sei que olhando pra ele
Tudo parece bom.

Vanessa de Mello Brito

22.5.07

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda Gira,
a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa

Preciso me encontrar

Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar

Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar

Quero assistir ao sol nascer,
Ver as águas dos rios correr,
Ouvir os pássaros cantar,
Eu quero nascer, quero viver
Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar

Se alguém por mim perguntar,
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar
Quero assistir ao sol nascer,
Ver as águas dos rios correr,
Ouvir os pássaros cantar,
Eu quero nascer, quero viver

Cartola

post para o João Mário André Valdemar:*

Cansei de você

Dessa roupa de clínico
Dessa cara de cínico
Desse ar superior

Cansei de você, meu amor.

Vou viver outra vida,
Sem seu olhar analítico.
Vou usar all star
E voltar a paquerar
Aquele cientista político.


Vanessa de Mello Brito
As nuvens caminham
O sentimento é completo
Meu maior amor,
Meu maior desafeto.

Você diz que não
Diz que tudo é concreto
Compra o seu perdão
Dá o seu decreto

As palavras rimam
A canção me aquece
Seus olhos miram
Mas nada acontece

Hoje a tarde é minha
Queria poder sorrir
Me sinto tão sozinha
Que já não sei mentir

Já não amo mais
Palavras não fazem sentido.
Já não lhe quero, amor.
Já não lhe quero, amigo.

O mundo continua, com outras paixões
E guardarei aquela minha canção
Você terá suas rimas, e os seus perdões
Mas nunca mais o meu coração.

Vanessa de Mello Brito

Na Fria Curitiba*

*Por essa poesia fui homenageada no Centro de Letras do Paraná em 2006. Espero que gostem :)

No painel de Poty vi a gralha azul
Que há muito tempo não via
Que nas minhas épocas de infância
Nessa cidade se escondia

Acordo cedo e vejo
Os ônibus tomarem a cidade
Com seus casacos, bocejos
Olhares por toda a parte.

Os dias frios que se passam,
Lembram-me de lareira e de amores
O pinheiro esconde a cidade
Feita de luz e de flores.

Todos andam tão cansados
Por todos os lugares, todo o dia
Que é difícil, em seus olhares,
Não encontrar poesia

O tempo passa gentil
Nas horas do Relógio das Flores
Que em cada estação refloresce
E deixa para trás outras cores

O brilho dos olhos ainda brilha
A essência da Santa Felicidade não deixou de existir
Pois, afinal, a cidade sorriso,
A fria Curitiba,
Não se esqueceu de sorrir.

Vanessa de Mello Brito

Curitiba chuvosa,

Sexta feira, na Santos Andrade.
Sou a única alma em prosa
Nesta cidade.

Guarda-chuvas e canteiros
Carros e passantes
Sentimentos passageiros,
Caminho errante.

Outra noite nesta universidade
Sorrio para meus colegas
O frio dessa cidade
Não nega.

Outra noite nesse lugar
Olhando para meus amigos
Eu só queria ter você
Comigo.

No entanto a chuva lá fora
Esconde algo neste dia...
Inquieta, nesta sala,
Sou a única poesia.

Em suas luminárias enfileiradas
Na velha moça que caminha...
Então, cidade amada,
Estamos sozinhas.



Vanessa de Mello Brito

Não deveria acabar assim.

Uma vela acesa.
Os telefonemas no meio da tarde. Eu esperando você no meio da noite.
Não deveria acabar assim...
Ou, talvez, deveria.
O tempo foi passando, e a vela foi queimando até se apagar.
Talvez ainda reste alguma chama em meu coração, senão não pensaria mais em você.
Não sinto a sua falta. Sinto falta da pessoa que conheci há algum tempo atrás, já não o conheço mais.
Agora, ainda sei quem você é, mas me pergunto quem eu era.
A vela apaga.
E sinto falta de tudo o que ainda poderíamos ser.

Vanessa de Mello Brito

Um ao outro

Na noite calada, as vozes se misturavam na festa, onde as pessoas riam, os casais se beijavam e ele tinha o olhar dela, grande e negro, como uma escuridão a qual se quer iluminar. Seu cabelo, liso e comprido, escondia as suas costas de onde saíam seus ombros macios e delicados. O batom ficara no copo, mas seus lábios permaneciam avermelhados, como duas rosas em botão. Sua pele era como veludo, e quando as pessoas pediam licença, ele tratava de esbarrar propositalmente no braço dela, o que fazia seu coração bater mais rápido, e o mundo girar mais devagar. Como um anjo intocável e puro, que só de olhar o fazia sorrir por dentro.
Ela sabia disso. Nos brilhantes olhos verdes dele, olhava demoradamente e depois desviava, por puro orgulho ou timidez. O que ela não sabia era que seus dedos compridos como pétalas tentavam alcançá-lo, assim como a sua boca e seu coração. Ambos sorriam mais do que de costume, e quando seus olhares se encontravam pareciam somente existir um ao outro: Simples, docemente iludidos e completos, como uma névoa inebriante ou uma manhã de natal.
Eles queriam um ao outro, era verdade. Mas o que não sabia era que o amor estava contido em cada olhar e em cada arrepio que sentiam naquela noite fria.

Vanessa de Mello Brito
Agora nada me falta
Tenho tudo o que queria
Agora nada ressalta
E vivo dia após dia

Eu que antes amei o imperfeito
Eu que antes esperava por outro dia
Sinto que agora nada bate em meu peito
Não sinto amor, paixão ou alegria.

Eu te amo, não duvides que te amo
E te quero, não duvides que te quero
E penso em você, e te chamo
E pode ter certeza que te espero

No entanto uma angústia profunda
Continua a habitar dentro de mim
Esse sorriso que mostro, lá no fundo,
Já não se sente tão contente assim

Antes as coisas não esfriavam tão depressa
Antes eu sentia tanto...
Talvez eu que não seja mais a mesma
Ou já não ligo pro teu pranto.

Mas amanhã será outro dia
E estarei aqui a te esperar...
Teus beijos, teus temores,
Tuas histórias pra contar.

Vanessa de Mello Brito
Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

Álvaro de Campos